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Aprendizagem e tempo

Eu me casei em 1984. Por amor. Desde então, venho aprendendo a amar. E passei todo esse tempo também ensinando meu marido a me amar. Cara! Como é difícil. As duas coisas são difíceis. E olha que nós dois já tínhamos 'estagiado' antes. Bom, ele bem mais do que eu porque eu tinha 20 e ele 33 anos. É difícil, as duas coisas são difíceis e ponto. Saber amar e saber se deixar amar. Mas são possíveis. Tá aí a beleza do negócio. E, se a gente souber ou conseguir fazer direitinho, mesmo que o casamento acabe (o meu "acabou" 4 vezes, explico as aspas em outra ocasião), a amizade permanece. E isso é mais lindo ainda.

 

Eu me formei em 1986. Em Psicologia. Desde então, venho me esforçando por aprender como gente funciona e como é que 'conserta' quando 'quebra'. E como é difícil. É quase tão difícil quanto aprender a arte de amar e ser amado. Mas é possível. E é lindo o processo e o resultado, ainda que parcial porque, afinal, 'a história nunca termina'.

 

Eu comecei minha carreira em 1984. Como estagiária de RH na Brasilit. Desde então venho aprendendo a 'ser' uma profissional da área de consultoria em gestão. Gestão de uma porção de coisas. Talentos, pessoas, comportamento, consequências, tempo, estratégica, conhecimento, embora essa última eu concorde plenamente com a Clara Pelaez sobre não ser possível esse negócio de gerenciar conhecimento. Nesse caso, o buraco é mais embaixo, mas isso é uma longa história. O fato é que é um mega desafio.

 

Vocês sabiam que gente nunca tá pronta? Sabiam que evoluir é um processo e não um evento? Desconfio que pouquíssima gente sabe disso porque, se soubesse, nunca nos pediriam pra fazer essas coisas de mudanças em 16 horas; em 8 horas; já pediram TODAS elas, as gestões TODAS, em 4 horas. Dá prá acreditar numa coisa dessas?

 

Eu não sei quem tá mais doido. Se é quem pede, acreditando que pode mesmo receber pelo que pagou ou se é quem vende, acreditando que entrega mesmo o que vendeu. 

 

- Eu gostaria de receber uma proposta técnica e comercial para um treinamento de gestão de conflitos, liderança, formação de times e gestão do tempo para o dia 15 do mês que vem. São 56 participantes.

 

É bem assim que a doideira começa. Assim. Com essa simplicidade que eu tô te contando. Alguém - pra te dizer bem a verdade mesmo,  uma quantidade insana de 'alguéns' - me liga ou manda um e-mail e diz isso assim, sem anestesia nem nada. Ah! Se eu não sou do tipo que se benze.

 

Por favor, um pouco de piedade. Gente leva meses pra aprender a andar, anos pra aprender a falar, ler, escrever... e não horas. E olha que nem tem muita emoção envolvida nisso, heim! Garanto que mecanismos de defesa têm pouquíssimos ou mesmo nenhum. Ainda não, nessa fase da vida. Calcule nos processos comportamentais que querem, e, claro, com toda razão, que a gente ajude o povo a mudar! Mas em dezesseis horas? 56, 60, 100 seres humanos de uma vez só? Com maturidades psicológicas, profissionais e emocionais diferentes? Faz-me rir... de medo.

 

Sou obrigada a recusar esses trabalhos. Não seria ético aceitar o pagamento por coisas humanamente impossíveis de serem realizadas, seria? Eu nem to trazendo pra conversa a questão: Alguém muda alguém?. Não, não. To só falando de ajudar alguém a perceber que mudar poderia ser bom em certos casos, a querer mudar e a tomar consciência dos primeiros passinhos nessa direção, pra começar a história. 

 

Então, no lugar de treinamento, envio uma proposta de programa de desenvolvimento modulado ou de sensibilização ou até de tomada de consciência. Isso dá pra fazer. E bem, inclusive. Tomada de consciência, por exemplo, ainda mais com os atalhos da neuroaprendizagem, dá pra fazer até numa simples frase. Quem nunca leu ou ouviu uma frase de efeito que mudou o curso de sua vida? Que causou um impacto tão grande que se lembra dela 10 anos depois como se tivesse acabado de escutar? Esse é o lance da consciência. Sua medida não é a quantidade, é a intensidade.

 

Carlos Drummond diz num pensamento, que é uma das minhas citações favoritas, uma dessas que tá na minha memória há, por baixo, uns 20 anos: Ele diz: "Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica e nenhuma força jamais o resgata." Isso é tomada de consciência. Isso é desenvolvimento. Como diz sempre meu tio Vanderlei (o tio Din Don), treinar é fazer melhor. E fazer melhor implica mesmo em 100 mil horas de 'fazeção', mas desenvolver é ser melhor. E, pra ser melhor, basta uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifique. Isso palestras são capazes de fazer, e com 2000 pessoas diferentes ao mesmo tempo. Por isso elas custam tão caro, sacou?

 

Posso atualizar você. Pode-se atualizar pessoas em assuntos específicos em 1 minutinho. É só dar uma informação inédita. Ó que fácil.

Posso sensibilizar. É claro que aqui entra a capacidade do consultor em envolver de tal forma os participantes que a experiência seja suficientemente intensa pra que a sensibilização aconteça, mas dá pra fazer.

Posso até conscientizar. Mas cuidado! Todo fumante tá consciente de que o cigarro o prejudica enormemente; daí a largar o danado, é outra história, certo?

Tomada de consciência é um passo na direção de onde se quer chegar. Não é ainda a chegada.

 

Se esse fosse meu único 'tira-sono', tava até bem bom, mas não é.

 

Imagina a cena:

 

Médico: Pois não? Em que posso ajudá-lo?

Paciente: Sabe o que é doutor? Eu to com uma diverticulite e preciso de uma antibioticoterapia oral, preciso tomar metronidazol 500 mg de 8/8 horas e ciprofloxacina 500 mg de 12/12 horas por 7 a 10 dias.

Médico (horrorizado): Mas como é que você sabe tudo isso?

Paciente: Eu achei a informação na internet.

Médico (entre irônico e curioso): Se você sabe os sintomas, a doença, o remédio e até a posologia, "doutor" (com ênfase e neon), pra que precisa de mim?

Paciente: Ah! Isso? Só me vê aí uma receitinha, faz favor. É que eu preciso do CRM pra comprar.

 

Cê tá pensando que eu to de sacanagem, não ? Pode falar. Eu sei que tá. Mas eu não tô. Já recebi telefonemas de clientes me dizendo o que fazer, como fazer e tudo minutado em planilha. Pode acreditar. Claro que eu respondi que se a pessoa sabia tudo, o mais ético seria ela mesma conduzir ao invés de tirar o dinheiro da empresa que ela representava, concorda comigo?

 

O pior é que dor pode ser reflexa. O cara da diverticulite, pode nem estar com essa doença realmente. Pode ser outra coisa mais sutil. Vai que essa coisa não tá na internet. Olha o estrago que isso faz.

 

O povo acredita em tudo que tá na internet, essa terra de ninguém. Eu heim. Coididoido sô.

 

Mas, reflexo disso, boa parte do povo com que eu trabalho, me liga ou escreve ou conduz a reunião de briefing desse jeito maluco aí. Me diz o que eles tem - até aí tudo bem se foi mesmo feito um diagnóstico do problema por um especialista - de que atividades precisam: "Queremos que você aplique o jogo "X". Quanto custa?" E me dizem em quanto tempo eu tenho que conseguir os resultados, que, combinemos, naquela carguinha horária "chulé", nem eu nem o Papa. Algumas técnicas até surpreendem pela rapidez e consistência de resultados, mas, até onde eu sei, com aplicações individuais. Pelo menos isso.

 

Eu nem mesmo vendo jogos, que dirá o jogo "X" específico. Eu vendo soluções. E, se no meio do campeonato, com bola rolando no campo e tudo, eu precisar fazer uma mudança de programa porque o grupo precisa, farei. Isso é respeito pelo processo e pelas pessoas. Isso é ser consultivo. 

 

Se eu me prestar a ser apenas operacional, seguir roteiros, é bom que quem diagnosticou o problema tenha mesmo acertado na "doença" porque, se eu me dispuser a 'ser' só uma "aplicadores de jogos", por melhor que eu seja nisso, caso a dor de cabeça esteja sendo causada, por exemplo, pelo estômago e não por aquele fígado diagnosticado, alguém vai voltar pra casa depois das benditas 16 horinhas, com uma baita gastrite.

 

Sinto muito mesmo comunicar que, por tudo que se sabe sobre gente até o presente momento, as coisas não acontecem assim "automagicamente".

 

Pronto. Falei. Num fica bravo(a) comigo, tá?

 

Beijos sabor desabafo profissional de quem ama o que faz e "as gentes" que "ajuda"

Inês Cozzo Olivares


P.S. besta, besta: Vai sem foto hoje. Eu não tinha nenhuma apropriada pra ocasião e tava muito feinha pra tirar na hora. Fico devendo…

Eu li num dos muitos blogs que eu acompanho, uma frase de que gostei muito: 'O silêncio oportuno é mais eloquente do que o discurso'. Pensei comigo mesma: Uau! Que frase impactante; que pensamento interessante. E útil. Prá lá de útil.

 

Pensei em todas as vezes que escolhi me calar e no quanto isso foi melhor para todas as partes envolvidas na questão. São essas vezes em que a gente percebe que, com ou sem razão, continuar confrontando não levará à nada senão desafetos e mágoas. 

 

Algumas das vezes em que usei o silêncio como ferramenta, senti que foi confortável pra mim. Bom, talvez, não confortável; tava mais pra aliviador ou protetor. Com certeza eu me senti protegida no meu silêncio. Ah! Tá bem, eu confesso. Eu tava era com um medo lascado de falar. Foram sempre vezes em que fui pega 'com as calças na mão', pregando moral de cuecas, como diz meu amigo Guilhermo Santiago

 

Mas, o fato é que, felizmente, na maioria das vezes, tenho consciência de que foi mesmo esse silêncio oportuno de que falava a frase. Era o melhor que havia a fazer naquelas circunstâncias.

 

Isto posto, resta uma dúvida inconveniente. Considerando-se que eloquente significa expressivo; convincente; persuasivo, o que me preocupa é se eu sei quando meu silêncio é realmente oportuno, quando é meramente conveniente porque estou sem argumentos ou, pior, quando ele é pura e simplesmente covarde porque prefiro esconder alguma coisa de mim, em mim ou sobre mim, da qual me envergonho. O mesmo vale para o conflito. Me calo diante de um conflito por oportunidade ou por oportunismo?

 

Nosso idioma tem prefixos e sufixos. O sufixo 'dade', por exemplo indica a condição daquilo que está no prefixo. Então, indivíduo é aquele que não se divide, que é indivisível, uno, logo, individualidade é a condição de ser indivisível que temos. Já o sufixo 'ísmo' significa excesso ou exagero de. Logo também, o mesmo prefixo indivíduo seguido do sufixo ísmo, se refere à condição da pessoa que exagera e acaba egoísta (outro ísmo), pensando apenas em si mesma ou achando que o mundo existe exclusivamente para ela e seu prazer ou necessidades.

 

Oportunidade é a condição do que é favorável; oportunismo é o que é mais conveniente... pra mim, sem ganho para as demais partes envolvidas na condição favorável. Olha que chato. Eu não quero usar o silêncio oportunista, então, mesmo correndo o risco do desconforto, às vezes, eu confronto alguém. E aí começam todos os meus problemas. O mundo não quer funcionar assim. Droga.

 

Por quê será que a grande maioria das pessoas tem tanto medo do conflito e do confronto? Quero dizer, deve ser medo porque eu conheço algumas que fogem deles como se fossem doença ruim. O mais louco é que eu, que não faço isso (fugir deles), fico com essa vaga sensação de que todos me olham meio de ladinho quando eu chamo para a conversa, uma questão que tenho consciência de ser conflitiva ou confrontiva, porém extremamente necessária, seja do ponto de vista ético, moral ou até mesmo prático. 

 

É dureza nadar contra a corrente. Mas, se eu não fizer isso, como durmo à noite? Vocês não têm noção do que é essa minha cabeça quando tudo fica escuro e silencioso, nenhum estimulozinho pra me distrair. O negócio vira inquietação e fica cutucando. Vira o que minha irmã chama de post it na mente. Fica lá, o maledeto do post it. Incomodando. Juro que eu tento ficar quieta, juro. Eu até penso: Não seria maravilhoso, Inês, se no seu cérebro houvesse algum dispositivo capaz de controlar sua própria boca e fazê-la ficar fechadinha? 

 

Mas desconfio eu nasci sem ele. O dó. Aí, eu confronto e todo mundo ou começa a pular que nem milho de pipoca no óleo fervendo ou tentando me fazer ficar quieta. Meu primo Igor diz que nessas horas eu pareço criança. Quem mandou eu ler O Pequeno príncipe quando era pequena? Foi com ele que eu aprendi a jamais desistir de uma pergunta até conseguir alguma resposta.

 

Por exemplo, recentemente eu confrontei uma pessoa sobre uma questão que tava me incomodando há vários meses. Pedi a opinião de várias outras e confrontei a única que poderia me responder a dúvida porque ela é que tinha sugerido um critério do qual eu discordava. Bem, de duas uma, ou tinha entendido mal o critério ou discordava mesmo.


Pra me certificar de que seria justa na minha discordância, eu perguntei em que estava baseado o critério que ela usou pra determinar uma nova regra pro nosso pequeno e seleto grupo. Vocês vejam, to exercitando um direito, aliás, inalienável de todo ser humano esse de discordar, certo? Quem foi mesmo que disse "Vou morrer defendendo seu direito de discordar de mim? Adoro essa afirmação. Adoro.

 

Nesse caso do meu exemplo, eu recebi até declaração de amor (gostei pra chuchu), mas nenhuma resposta à minha pergunta. Nenhumazinhainha que "sesse". Nadica de nada. Alguns botaram "panos quentes", outros se calaram, mas ninguém me respondeu. E eu só queria saber porque tinha que ser daquela forma. Só isso? Porque determinada condição era anti-ética do ponto de vista da pessoa que estabeleceu a condição. E, se era mesmo anti-ética, porque ele havia se comportado contra seu próprio critério. Só isso. Num tá simples a pergunta? Eu acho que tá. Só eu achei isso...

 

Ih! Pra quê que eu fui fazer isso. Virou um mal-estar geral danado. Foi pipoca pulando, foi declaração de amor, foi música do Almir Sater (o povo tem bom gosto nesse grupo seleto). Felizmente, meu primo Igor tirou o post it da minha mente. Sabiam que alguns anjos conseguem esconder suas asas n'algum lugarzinho secreto e ficam vivendo entre nós que nem que nós? É-é. Aposto que meu primo Igor é um desses. E ele pensa que eu num sei. Bobinho... Tsc, tsc, tsc. (tradução pro povo que nunca leu um gibizinho na vida: onomatopéia, isso é, som, pra estalo de língua que acompanha movimento de negação com a cabeça).

 

N'outra ocasião, eu confrontei um amigo de mil anos, muito amado, e sua jovem esposa, linda, inteligente, cheia de energia e cabeçuda como o quê, numa série de atitudes que eles estavam tendo e que os estava afastando de tudo e de todos que eles amavam e que os amava, inclusive eu mesma. Pra quê? Me cortaram de todas as redes sociais, MSN e que tais da vida. Sumiram. Chuinf... Snif, snif... (hoje eu to cheia de onomatopéias).

 

Querem saber? Eu fico com Martin Luther King. Vou continuar incomodando um bucadinho porque "O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons". Esse silêncio, não é nem nunca será eloquente. Esse tipo de silêncio, eu dispenso, obrigada.


A música Meu silêncio do Eduardo Bologna que tá no CD da minha amiga Estela Cassilatti (sou fã dela, povo, muito fã mesmo!), que inspirou parte desse texto, diz algo que eu não quero pra mim: "Meu silêncio tomando conta da sala, enquanto o tempo, envelhecendo a minha cara". Não quero o pior de mim ocupando todo um espaço, enquanto o tempo passa e eu me calo diante das coisas das quais discordo.


A mesma música diz, mais adiante na letra: "As minhas flores estão dentro da geladeira, enquanto o amor, esparramado pelo chão." Bem, se o que eu tenho de melhor e mais bonito está parado, estático, congelado pelo meu silêncio, enquanto o meu amor está desperdiçado e se perdendo, esse é um silêncio sofrido e não me ajuda a crescer. Nem a mim, nem a quem eu amo.

 

Se é verdade mesmo que existem vários tipos de amor, te ama mais a pessoa que te avisa, que te alerta, para os possíveis perigos futuros dos caminhos que você está trilhando, do que a pessoa que escolhe o silêncio conveniente. E, desde que eu diga que essa é só minha opinião e não uma verdade absoluta, porque nessas eu nem acredito, a legitimidade do aviso está garantida, certo?

 

Eu só aviso e confronto quem eu amo. Aviso porque vale o risco de "perder" esse alguém se ele ou ela não suportar ser confrontado em suas crenças e valores. Como aconteceu com esse casal amigo que citei.

 

Se eu "perco" esse alguém, sofro, claro. É sempre sofrido "perder" alguém que a gente ama (seja lá que tipo de amor for), mas é muito mais sofrido ver quem a gente ama se afundar em decisões e atitudes perigosas para sua felicidade e a daqueles que ele ou ela também ama. Então, escolho avisar. E, algumas vezes, acabo confrontando.


Se eu "perco" essa pessoa - hummm... melhor seria dizer: se eu perco o amor dessa pessoa - perco muito, mas ela perde mais do que eu. Eu perco porque amo; ela perde porque sou eu quem a ama mais, muito mais, do que outros e outras que estão vendo ela se afundar devagarinho na vida e preferem se calar.

 

Essa idéia não é nova, nem é minha. É do teólogo, poeta e sacerdote nicaraguense Ernesto Cardenal Martinez.

 

Ao perder a ti, tu e eu perdemos.

Eu perdi, porque tu eras quem eu mais amava 

e tu, porque era eu a pessoa que te amava mais.

Contudo, de nós dois, tu perdeste um pouco mais.

Porque eu poderei amar a outra pessoa como amei a ti.

Mas a ti, nunca te amarão como eu te amei.

 

Beijos sabor pipoca na panela

(barulhenta e inquieta mas,

saborosíssima pra quem sabe apreciar)

 

 

 

Inês Cozzo Olivares

SP, 21/01/2010 6h14

Não, eu ainda não corrigi direito meu ciclo circadiano de sono. Éca!

 

   
São quase 2 e eu vou me ferra-ar

Que perigo. O mundo virtual é mil vezes melhor que o real. O virtual nunca te decepciona. Em algum lugar da internet tem uma resposta pra sua pergunta, um conselho pro seu problema, uma história interessante, um filminho da hora, um amigo pra conversar de boa e por aí vai. É por isso que a grande maioria das pessoas passa mais tempo nele, no mundo virtual, que no real. Vai daí que eu, por exemplo, ando doente. Aliás, eu e toda a torcida do Corínthians, Fluminense, São Paulo, Palmeiras, Flamengo, Santos, Portuguesa... Esqueci algum grandão? 

 

O nome da nossa doença é INSÔNIA DIGITAL. Veja se você se identifica comigo.

 

Quando você fica muito tempo usando o computador, a sensação é de que sua mente não “desliga”, não pára, e você se sente ligado no 220? A disposição do seu corpo parece ser grande, por causa dos pensamentos que ficam passeando na sua cabeça um atrás do outro? Os olhos praticamente imploram pra serem fechados, mas você resiste bravamente ou, se cede ao pedido deles e se deita, fica rolando de um lado pro outro, ainda pensando, pensando? Nem os óbvios sinais de cansaço; ardor, vermelhidão, embaçamento ocular, são capazes de desligar sua mente?

 

Enquanto tudo isso acontece, o relógio vai marcando uma hora após a outra, certo? E a noite quase vira dia, certo? Quando não vira mesmo, certo? Sem 'quase' nenhum, certo? 

 

É. Tá confirmado. Eu e você somos do mesmo planeta. Ui. 

Não, esperto(a), ui não é o nome do nosso planeta. É a expressão do estrago que a gente tá fazendo com esse corpitcho.

 

Vou contar porque. É porque a luz do monitor interfere na produção de melatonina, hormônio secretado pela Glândula Pineal. Você não faz idéia de como essa bichinha é importante na sua vida, faz? Mas é muuuita mesmo! Só pra te dar uma idéia, não há mais dúvidas entre os neurocientistas sobre quão importante é o papel que ela exerce na regulação dos chamados ciclos circadianos, que são os ciclos vitais (principalmente o sono) e no controle das atividades sexuais e de reprodução. É meu amigo, minha amiga, a não ser que você não se importe mais por não conseguir brincar de médico, acho bom fazer como eu, tomar chá de melissa, maracujá, mulungo e valeriana (como isso fede!) e ir dormir, porque, bem, a melatonina é o hormônio responsável pelo sono, que irriga o cérebro. O desequilíbrio desse suquinho, provoca outro baita desequilíbrio: o da regulação hormonal no período noturno. 

 

O prejuízo é imenso, porque durante o dia, eu e tu, tu e eu, ficamos sonolentos, de humor instável, tipo xingando até formiga, e nossa produção intelectual (lembra do Tico e do Teco?), com o tempo, acaba bem afetada. 

 

Um sono de qualidade é uma espécie de “lubrificante” cerebral no que se refere às funções psíquicas. Tudo isso super afeta e interfere no nosso comportamento. Olha aí você de TPM. E nem importa se você é homem ou mulher. TPM é só hormônio doidão. É como diz a música 'Eduardo e Mônica' do Legião Urbana: "São quase 2 e eu vou me ferra-ar...". Senhoras e senhores, heis aqui o melô da insônia digital.

 

Quem descobriu o babado todo foi a psicóloga Gema Duarte, que pesquisou o assunto em sua tese de mestrado na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Ela trabalhou com 160 jovens entre 15 a 18 anos, que usavam o computador principalmente entre as 17h e as 3h, durante a semana, e entre as 18h e as 6h, nos fins de semana. Nesse estudo, constatou-se que esses adolescentes são os mais prejudicados por estarem em fase de desenvolvimento, onde o período noturno do sono é responsável pela maior produção de hormônios do crescimento. E eu nem fiquei feliz em pensar que ainda me comporto que nem adolescente. Bah!

 

Mas, nem tudo está perdido. A tia Inês está aqui pra te ajudar (e à ela mesma assim que ela seguir os próprios conselhos, a tontinha). 

 

Se você, como eu, precisa usar muito o computador em períodos noturnos, faz o seguinte: 

 

1º Deixa as luzes do ambiente acesas. Assim o plano focal de seus olhos não se concentrará apenas no monitor e, consequentemente, a radiação dele será menor sobre você


2º Se for notebook deixe a tela inclinada; 

 

3º Pare de usar o computador pelo menos duas (02) horas antes de ir dormir; sei lá, vai ler gibi. Isso ainda existe?

 

4º Dê intervalos regulares de pelo menos dez minutos. Nestes intervalos, fica longe do computador, alongue-se, tome um suco de maracujá… vê se descansa! 

 

5º Tome um banho antes de deitar, a água vai te ajudar a diminuir a energia estática da sua pele e a aliviar a temperatura do seu corpo. 

 

6º Quando deitar, crie o ambiente mais escuro possível. 

 

É bom lembrar que o período de sono recomendado é de, no mínimo, seis horas, viu, 'seu' Victor Mirshawka Junior? Pelo menos, eu durmo 5 horas. Tá mais fácil readaptar pras 6h que você com suas 3 ou 4 horinhas, hehe... A propósito, o senhor andou me chamando ontem alí pelas 2h30, 3h da manhã? É que eu já tava quase apagando e PIMBA!... Deixa prá lá.


O caso é que ainda se acredita que o ideal seja de oito a dez horas diárias de sono. Acredito que isso um dia vai mudar. Até lá, ai, ai, vou ver o que consigo fazer comigo...

 

Beijos sabor carneirinhos contados... e assados! Que, de madrugada dá uma fome lascada!

Inês Cozzo Olivares

SP, 18/01/2010 2h25AM

Tô acordada mesmo, fazer o quê?

 

Meia-noite

Eu não queria uma mensagem de início de ano do tipo 'votos disto, votos daquilo'. Aliás, eu ainda continuo não querendo. Não é por nada não. Votos são coisas bem legais. Quando não se banalizam as palavras, que acabam entrando por um ouvido e escapulindo pelo outro. E é muito difícil não banalizar palavras que são usadas todo santo ano. Ah! Se é.

 

E eu disse que um dia ainda escreveria sobre a Meia-noite, esse horário emblemático, misterioso, romântico e carregado de uma magia que o torna diferente de todas as outras horas. É como se ele nem fosse mais "hora". É como se os contos de fadas e outras mil estórias já o tivessem promovido à condição de 'Ser', de entidade absoluta e auto-suficiente. Sim senhor, a Meia-noite é uma hora que pode dizer com o peito estufado: "Eu 'se fiz' por 'si mesma'. 

 

Então, percebi que era possível falar deste início de ano, olhando só pra esse momento mágico que determina seu início: A Meia-noite.

 

Imagina que acabamos de passar pela Meia-noite mais famosa do mundo: O momento que, em português, chamamos de Reveillon. Ops... Desculpem a ironia. Escapou.

 

Esta é a meia-noite que marca um tempo que ficou na história da nossa vida e, ao mesmo tempo, a promessa de que tudo será melhor. Nem importa se o que passou foi bom, o que virá sempre se espera que seja ainda melhor. 

 

Você já parou pra pensar em tudo que representa, simbolicamente, a expressão "Meia-noite"? O final de um período; o início de um novo dia com todas as suas promessas e possibilidades. Tá, tá. Mas tem muito mais do que isso no nosso imaginário.

 

Como eu disse na minha mensagem de ano novo, a vida faz aniversário e todos nós estamos convidados para a festa. É bom demais. As forças se renovam porque a fé em algo melhor se renova. Não conta pra ninguém, mas eu desconfio que é essa fé, e não o novo ano, que nos leva ao infinito e além, como diria Buzz Lightyear do delicioso desenho animado Toy Story da Disney.

 

Mas, pensemos agora no lugar onde ela - a Meia-noite - é mais importante e transformadora: Na história da Cinderela. 

 

Você não acha que só mulheres são Cinderelas, acha? Tolinho. Não mesmo.

 

Quem nunca se sentiu completamente perdido porque alguém que o fazia se sentir seguro e protegido se foi inesperadamente? 

 

Quem nunca achou que o mundo inteiro estava contra ele e fazia de tudo pra impedí-lo de alcançar seus sonhos? 

 

Quem nunca viveu num ambiente hostil e cheio de adversidades, com muito menos do que o que acreditava merecer? 

 

Quem nunca se encolheu num cantinho e desejou desaparecer porque o mundo parecia um lugar horrível e inexplicável, impossível de ser decifrado? 

 

Quem nunca se sentiu a última criatura do mundo, sem amigos ou aliados?

 

Todo mundo, de quando em quando, tem seu momento Gata Borralheira. Sabiam que a depressão já é considerada pela Organização Mundial da Saúde como o mal do nosso século com tendências a piorar? Bem Gata(o) Borralheira(o), você não está tão só, afinal...

 

Mas a Gata Borralheira não vive assim pra sempre. Ufa! Que alívio! Uma hora ela vira Cinderela!

 

Existem aliados afinal. Inclusive, essa é minha parte favorita da estória. Essa aí, em que os aliados são os diferentes, os párias, os fracos, os marginalizados, os excluídos, os pequenos, os humildes, os 'ratos'. Aqueles dos quais a maioria fala mal tanto e por tanto tempo, que esquece que têm tanto direito de estarem neste Planeta quanto nós. Tomara que se continuem escrevendo estórias onde o diferente se torna herói, contra todas as probabilidades. Tomara. Quem sabe assim, nossas crianças aprendam a respeitar o 'diferente' - se é que há dois iguais de qualquer espécie, ao invés de considerá-los monstros a serem vencidos, excluídos, eliminados.

 

E tem o aliado especial, aquele que tem poder pra mudar o curso da estória. Neste caso, a superhiperesplendivilhosa fada madrinha. Ela providencia para que, até a hora mágica, a meia-noite, o melhor de você esteja visível para todo mundo, em especial aos olhos daquele ou daquela que está melhor preparado e preparada para enxergar seu brilho. Não desde o amanhecer, mas quando o dia vira noite e vai chegando cada vez mais pertinho da hora mágica. 

 

Tudo que a gente tem de melhor, ainda não está 100% visível até a meia-noite. Estamos no meio da multidão. Em destaque, é verdade, mas na multidão do baile, no salão do castelo. Ai sim, aí a dança chega ao terraço onde, é claro, a Lua e as estrelas aumentarão nosso brilho aos olhos daquele e daquela que já estava preparado para vê-lo. De fato, estava só aguardando esse momento porque sempre soube que ele aconteceria. O nosso melhor não acontece na entrada triunfal, nem na performance do baile. Isso tudo é acessório. É no bate-papo no terraço. Aí é que a coisa se consolida. A intimidade com o tão desejado pode acontecer. Só você e seu sonho. Mais nada.

 

Se você fizer tudo certinho até esse momento, quando a 12ª badalada soar e você tiver que voltar ao dia claro, que insiste em mostrar suas manchinhas na pele, ruguinhas ao redor dos olhos e outros que tais, algo lindo de você terá ficado. Algo que fará ruguinhas e manchinhas parecerem não existir. Não, não é o sapatinho de cristal. Ele é só o símbolo de que houve, antes, uma fusão de almas entre você e o seu sonho. Então, seu sonho virá atrás de você. 

 

Você vê? Tudo desaparece. A carruagem, os belos cavalos, o vestido magnífico, mas não o símbolo que representa quem você realmente é: A pessoa que articulou a conversa no terraço. A alma por trás das palavras e dos atos. É aí que mora sua beleza. Já disse Adélia Prado: "Erótica, é a alma".

 

Como eu disse, tem mais, muito mais nessa meia-noite que a torna especial. Ela não abrirá apenas um novo ano, mas uma nova década. Imagina. Uma década inteirinha pela frente. Aí eu me lembro de uma passagem onde Don Juan diz à Castanheda, e eu digo à você agora que vamos começar essa nova década: "Nesse exato momento, você está cercado pela eternidade. O que você vai fazer com isso?"

 

Às vezes, a gente tem o sonho nas mãos, tem a eternidade nas mãos, e deixa escapar. Aí vive amargurado e se sentindo incompleto. Mas um dia o sonho volta. Sonhos nunca abandonam a gente até que a gente ou faça as pazes com eles e os deixe ir ou os integre à nossa vida presente. É disso que fala a música Meia-noite da minha amiga Estela Cassilatti. Uma música que ela compôs porque eu pedi. Por isso fiz questão de cantar junto. E eu pedi, porque queria dar de presente, numa meia-noite especial, à um sonho que eu sonhei há muitos, muitos anos...

 

Cuida bem da sua eternidade. Ela é a única que você tem.

 

MEIA-NOITE

 

Letra e música: Estela Cassilatti

Flauta, violão e violão tocado como se fosse violoncelo: Guilhermo Santiago

Vozes: Estela Cassilatti e Inês Cozzo Olivares

 

Na parede do meu quarto

O relógio marca meia noite

Há muitos anos...

 

No espaço entre meus móveis,

Afobado, meu fantasma te procura

Há muitos anos...

 

Eu me lembro de uma Lua na janela

Ou fui eu que inventei

Em páginas amareladas de espera

 

Nas paredes do meu peito,

Congelado, o coração me acorda

Depois de anos...

 

Dou corda no relógio velho

E ele me traz a primavera

Depois de anos...

 

Eu me lembro de um vestido que te espera

Ou fui eu que inventei

Em páginas amareladas de tão velhas

 

Nas paredes do meu peito,

Congelado, o coração me acorda

Dou corda no relógio velho

E ele me traz a primavera

 

Te convido pra uma festa, pra uma Lua na janela

De vestido novo que te espera

Depois de anos...

 

Beijos sabor fruta novinha em folha. 

Aquela que você mais gostar...

Inês Cozzo Olivares

SP, entre 01 e 10/01/10

   
Meu irmão Cláudio

Quem já leu tudo que escrevi até hoje sabe que, em termos de primeira família, tenho um irmão chamado Carlos, 'o bonitão', aquele das baladas nas Disco Dances dos anos 80, e uma irmã chamada Daniela, menina-mulher viva, linda e inteligente, sabem do meu pai-amigo, que se foi recentemente, e da minha mãe, de quem herdei o bom humor permanente e a capacidade argumentativa (ô 'véinha' boa de negociação) e que é ágil feito um corisco além de ser a grande diplomata e matriarca de uma família de nove irmãos, dentre eles o tio Din don, longa e linda história (toda família tem inúmeras delas, por que só eu escrevo, heim?), enfim, já falei dele muitas vezes nos meus escritos, é o meu tio Vanderlei que muitos e muitas que me lêem conhecem da ABTD e sabem que foi o grande responsável por eu haver me tornado palestrante, escritora e consultora organizacional e atuar com treinamento e desenvolvimento.

 

Mas hoje eu quero compartilhar com vocês um insight importantíssimo que tive sobre o meu irmão Cláudio. A gente chama ele de Claudinho, porque esse era também o nome do nosso pai e porque ele era o caçulinha antes da Dani nascer, 20 anos depois de mim. Ou Clau, porque ele espichou muito pra combinar com o 'inho', entendem?

 

Bem, meu irmão Cláudio é o que o povo chama de 'duro na queda'. O bicho trabalha 25 horas por dia, 8 dias por semana, 5 semanas por mês e 13 meses por ano. Eu sempre me pergunto em que buraco negro do tempo ele entrou pra fazer três filhos ma-ra-vi-lho-sos e manter uma esposa linda e sorridente! Eu nem precisava de tanta redundância (apesar de que redundância já é tanta - dãããã...) pra te dar a tal da idéia do tanto que ele trabalha, mas, no caso dele, precisa. Porque ainda é um tiquinho mais que isso. 

 

Vocês bem podem imaginar que, sendo ele um gestor de uma grande empresa e um empreendedor, não possa ver ninguém por perto não fazendo 200% do tanto que ele faz, sem ficar mordido com isso, logo, já pode deduzir que ele é um dos melhores representantes do modelo de gestor que eu sou chamada pra dar personal coaching. Ou para ajudar a desenvolver a resiliência da equipe, porque ele 'puxa' bem mais dela do que ela gostaria. 

 

Vejam que ironia do destino. Eu, uma consultora organizacional com o modelo exato que me empenho em 'curar', dentro do meu próprio clã. É uma ironia... ou não... Por causa do meu insight de hoje. 

 

Mentira, tá? Foi na noite de Natal que o insight começou e se concluiu quando acordei na manhã seguinte, papeando com meu marido e minha sobrinha na sala de casa e falávamos dele. Cai, aqui, um pequeno mito sobre insights, eles não são sempre um flash repentino, mas uma conclusão, uma clareza, repentina de um conjunto de eventos seguidos, se e quando estamos realmente atentos aos eventos. E eu  sempre atenta aos meus.

 

Falávamos sobre ele estar dizendo que tentava muito ler o que escrevo, mas que era longo demais e ele precisava sempre dar uma paradinha e continuar depois. Já me disseram isso várias vezes, meu tio Chico foi o primeiro. Mas, olha que coisa, Deus mora nos detalhes.

 

De mais a mais, como contar uma vida em cinco parágrafos sem deixar coisas importantíssimas de fora? Como fazer você ter a sensação de que estamos papeando, de verdade, sem dar voltas e voltas, exatamente como agora...? Ah! Deixa prá lá. 

 

O que importa é que eu já tava pra perguntar quantos buracos negros do tempo ele conhecia e não me dava o mapa da mina, quando percebi que o que realmente importava alí era o fato de que ele lia! Ele lê o que escrevo, sabe Deus em que hora das 23 em que trabalha! E eu me senti a pessoa mais importante do multiverso (deste e dos paralelos que a física disse que existem).

 

Tem um cara, um desses gestores terror-dos-sete-mares, workaholic, que acha tempo pra 'me' ler! E é meu irmão! É lindo demais isso! Pelo menos, pra mim é.

 

Vou dar um quadro à vocês, primeiro do gestor terror-dos-sete-mares, depois do meu irmão. É preciso, porque o insight se deu por conta de eu conhecer muitíssimo bem os dois.

 

Um dia, eu liguei pra ele, sei lá mais porque, esqueci, e a moça disse:

 

- Ele não  na sala agora. Peraí que eu vou mandar chamar.

 

Tudo bem, ninguém em casa que ligava pra ele esperava mesmo conseguir encontrá-lo com menos de 15 minutos de espera. Gente ocupada é fogo. Mas essa mocinha, esqueceu de colocar o telefone na musiquinha (obrigada Senhor!) quando colocou o fone na mesa e eu fiquei ouvindo os papos no escritório.

 

Lá pelas tantas, um rapaz perguntou pra mocinha que me atendeu:

 

- E esse fone aí, fora do gancho? É o quê?

 

E ela respondeu, esquecida que não tava na musiquinha:

 

- Ah! É a irmã do carrasco.

 

Ai. Doeu. Esse não era o meu irmão. Será que ela confundiu os Cláudios?


Meu irmão era aquele garotinho rechonchudo e maciozinho, risonho, de olhos negros que nem jabuticabas enormes, cabelinho lisinho, lisinho e bem preto cortado que nem tigelinha, um tantinho medroso, que vivia agarrado à minha mãe sempre que íamos atravessar a rua, que detestava que se contassem histórias de fantasmas antes de dormir, que brincava com gatinhos e cãezinhos abandonados na rua, que tinha, na época, dois filhos lindos que o adoravam e eu tenho até uma foto linda dele dando de mamar à primeira filha e que era o quadro mais lindo do mundo e uma outra dele abraçado ao filhinho ainda bebê, ambos dormindo no sofá! Era esse o Cláudio que eu tava procurando. Claro que ela confundiu os Cláudios. Claro.

 

Eu poderia contar histórias sobre como esse irmão sabia ser amigo e cúmplice que iam fazer essa mocinha chorar de emoção e admiração por ele.

 

O Cláudio com quem eu queria falar, era o cara que me ligava, não uma nem duas, mas muito mais vezes do que eu seria capaz de me lembrar e, quando e perguntava:

 

- Fala aí Clau. Que que cê quer?

 

Respondia:

 

- Nada, Nê. Tô aqui parado num baita trânsito e só liguei pra dizer que eu te amo. 

 

Às vezes, ele tava no escritório ou em casa mesmo. E só tinha me ligado pra dizer: "Eu te amo, maninha". Só pra isso! Um cavalão de quase dois metros! Só pra dizer que me ama.

 

Eu me perguntei naquela hora: "E aí mocinha? Você liga pra alguém da sua família - não o cara de quem você tá a fim, que isso é fácil de fazer - alguém da sua família, só pra dizer que ama essa pessoa e tornar o dia dela melhor? Liga? Talvez até ligue, sei lá. Mas que não pensa que mais alguém seja tão humano quanto ela, não pensa. Não pensou naquela hora.

 

Esse foi meu insight, O gestor que as equipes tanto temem; o terror da empresa; o cara em quem se bota os piores apelidos e nomes; esse cara aí mesmo em quem você possa estar pensando agora, ama alguém e é profundamente amado por alguém. Mais de um alguém!

 

Ele é tão pressionado por resultados quanto pressiona, talvez mais. Você não sabe e talvez nunca venha a saber quão mais pressionado que você ele é. Eu sabia sobre o quanto meu irmão era pressionado e o terror em que ele vivia, naquela época, com o próprio superior dele que era um dos donos da empresa onde ele trabalhava. 

 

Talvez a gente julgue e pior, trate, esses gestores dessa forma desumana, porque não sabe metade do que eles estão sofrendo pra manter seus empregos, pra sustentarem aos que tanto amam e nos manterem em nossos empregos, sustentando quem nós amamos.

 

Nenhum gestor nasce "carrasco". Eles se tornam assim por diversas razões. A maioria delas, cultural. O Oswaldo (Montenegro) tem uma música que eu admiro profundamente chamada "Petulante ou Todo mundo é lobo por dentro" que diz: "Você me disse que o meu olho é duro como faca. Acho que é sim, viu. Como é duro o tronco da mangueira onde você precisa encostar". 

 

O Mundo espera dos homens que eles sejam fortes, que sejam provedores, depois nós os acusamos de serem "duros". Especialmente nós, mulheres, fazemos isso. Não me parece muito justo. Mães não permitem que seus filhos brinquem com bonecas, mais tarde não entendemos porque eles não têm paciência com crianças ou têm dificuldade de cuidar delas apenas dando carinho e atenção. Nós, mulheres, treinamos isso desde muito cedo. À eles isso é praticamente proibido na infância, justamente quando estamos sendo treinados para os papéis sociais que exerceremos no futuro. Ah! Sim. Brincar de boneca nada mais é do que ensaiar a arte de cuidar, de dar colo, atenção, carinho. Depois, eles são cobrados por não serem tão capazes de fazer isso quanto nós. Até onde eu estudei, o nome disso é esquisofrenia. Preparar um ser humano pra "ser" de um jeito e depois cobrar que ele "seja" de outro; querer que ele "seja" duas pessoas diferentes. Doideira.

 

A história do meu irmão é só uma entre milhares de histórias por trás das pressões. Graças à Deus, essa é uma história que eu conheço por dentro e por isso posso contar, como irmã e como consultora, mas e as que nem eu nem vocês conhecem nem nunca chegarão a conhecer? Por isso não é uma ironia do destino. É na verdade, perfeito. O universo me deu a oportunidade de conhecer os dois lados da história e poder compartilhá-la com o mundo. Se equipes e gestores fossem mais unidos, os problemas e pressões pesariam menos para todos. Que pena ver que a maioria das pessoas prefere colocar apelidos e se afastar sistematicamente. Que pena.

 

Na noite de Natal, meu sobrinho Breno de 6 anos, o caçula do Claudinho, prova viva de que o The Flash existe e é um bocado inteligente, tava com minha irmã, madrinha dele, à caminho da casa do meu tio Francisco, onde passamos todos os nossos Natais, quando ela perguntou à ele:

 

- E aí Breno, tá preparado pro Papai Noel? Você foi bonzinho esse ano? (Jamais. Se tivesse sido bonzinho, ele seria um ET colocado no lugar do verdadeiro Breno, abduzido por alienígenas, para ser estudado).

 

Ao que ele, muito sério, respondeu:

 

- Então, madrinha, é isso que tá me preocupando...


Fica tranquilo Breninho, seu pai tá cuidando de tudo pra garantir seu Papai Noel a cada ano. O seu e o de um monte de gente...
 

Beijos sabor certeza de que nunca mais você vai olhar pro seu gestor do mesmo jeito. Não enquanto houver Natal. Não se Deus existir.

 

Ladies and Gentlemen, meu lindo irmão Claudio e sua filha mais velha, Thaís, hoje participante do GEN e cursando Psicologia na UFRJ.

 

 

 

Inês Cozzo Olivares

 

SP, 25/12/2009 (mesmo que você só esteja recebendo agora, porque eu precisava que meu irmão aprovasse essa aqui... Mas é claro que você entende isso, né?)

 

 Crônicas anteriores

   
É Natal

Eu pensei: Será que alguém espera que eu escreva alguma coisa porque é Natal? E pensei também: Será que eu quero escrever só porque é Natal? 

 

Hummm... Quero. Como é boa a vida quando é simples, não?


Só que eu quero contar de um outro Natal. Um que fez uma enorme diferença na minha vida. Foi em 2008, quando eu recebi de uma amiga, a Nancy Juozapavicius - furacão de competência e sabor em aulas particulares de Inglês baseadas em neuroaprendizagem e um poço de cultura, um cartão de Natal diferente, que mexeu pacas comigo. Era uma proposta pra pensar diferente a forma como medimos a nossa vida, através de um link de vídeo no youtube e que, hoje em dia, utilizo em algumas palestras. É a abertura do filme Rent: Os boêmios. A música é Seasons of Love (Estações do Amor) e já começa, contando pra gente quantos minutos tem um ano - 525.600 - e fazendo um questionamento que eu nunca tinha me feito antes:

 

525,600 minutes, 

525.600 minutos

 

525,000 moments so dear. 

525.600 momentos tão caros

 

525,600 minutes - how do you measure, measure a year? 

525.600 minutos - Como você mede um ano?

 

In daylights, in sunsets, in midnights, in cups of coffee. In inches, in miles, in laughter, in strife. In 525,600 minutes

Em luz do dia, em pores de sol, em meias-noites , em xícaras de café, em polegadas, em milhas, em riso, em luta, em 525.600 minutos.


How do you measure a year in the life?

Como você mede um ano na vida?

 

Eu me assustei muito quando percebi que estava medindo em pequenices, que eu tava sendo medíocre. Percebi que eu tinha me deixado levar pela maré tipo 'quantos trabalhos você realizou este ano?' ou 'quantos clientes agregou ao seu portefólio?' ou, éca - muito pior 'quantas aquisições você fez?' Não que essas coisas não tenham lá sua importância, têm. Só não queria estar medindo minha vida por elas, entendem o que digo?

 

Fosse lá como fosse, eu não tinha me perguntado nenhuma vezinha de quantos amigos (inclua-se aqui família porque eu já expliquei que a minha é amiga) eu estive presente nos aniversários, casamentos, batizados de filhos, formaturas, visitas quando doentes ou noites de sexta e sábado só pra jogar conversa fora; quantos beijos apaixonados e esquecidos de tudo à minha volta eu tinha dado e outras perguntas impublicáveis, porque sou tímida e isso aqui é um texto de família, sim senhor. Mas que me perguntei, perguntei…

 

Justamente no meio dessa tomada de consciência, um bocadinho desconfortável, a letra sugeria:

 

How about love? Measure in love. Seasons of love.

Que tal em amor? Meça em amor. Estações do amor.

 

Tirando o paradoxo de que, pra mim e pra William Shakespeare, é um amor pobre aquele que se pode medir, se eu pensar não em medir o tamanho do amor, mas em avaliar minha vida pelo e através do Amor que dou e recebo, o paradoxo desaparece. 

 

Vocês já ouviram falar nas várias formas de se manifestar que dizem que o Amor tem? Bom, eu tenho cá minhas dúvidas sobre essas classificações todas de Amor: ÁgapePhiliaErosPragmaStorge e sei lá eu quantos mais já inventaram ou ainda vão inventar para explicar algo que, eu acho que se a gente só sentisse e manifestasse, seria mais feliz. Pra mim, Amor é Amor e pronto. Mas você bem pode imaginar o que me aconteceu quando, naquele ano, me questionei como a letra da música sugeria, né? Se eu andava medindo em trabalho, é porque não tava sobrando pro Amor, fosse lá do tipo que fosse. Créda! Pára tudo! Que que eu tava fazendo???

 

how do you measure the life of a woman or man?

Como voce mede a vida de uma mulher ou de um homem?

 

In truths that she learned, or in times that he cried. In bridges he burned, or the way that she died.

Em verdades que ela aprendeu ou em vezes que ele chorou. Em pontes que ele queimou, ou a forma como ela morreu?

 

Imagina, então, que tem gente muito pior que eu, porque medindo seu ano ou - ai, ai, ai - sua vida, em quantidade de erros que cometeu e se punindo por isso. Quando penso nisso, lembro do trecho seguinte da música:

 

It’s time now to sing out, tho the story never ends let's celebrate remember a year in the life of friends.

Agora é hora – vamos cantar, embora a história nunca termine, vamos lembrar, celebrar, um ano na vida dos amigos.

 

Você vê, eu acredito nisso: 'a história nunca termina'. Então, nem sei se o que quer que esteja te amargurando já chegou ao fim ou se ainda terá desdobramentos e mudanças. Aposto que vai ter, aposto. E aposto que vai te surpreender, aposto. Como aquele caso famoso do lenhador que morava em uma pequena vila.

 

Apesar dele ser muito pobre, todos o invejavam porque era dono de um lindo cavalo branco. As pessoas ofereciam preços fabulosos por ele mas o lenhador sempre recusava. “Este cavalo não é um cavalo pra mim,” ele dizia. “Considero como uma pessoa. Como você poderia vender uma pessoa? Ele é um amigo. Como você poderia vender um amigo?”

 

Uma manhã ele viu que o cavalo não estava no estábulo. Toda a vila veio vê-lo. “Seu velho bobo,” eles zombavam, “nós te avisamos que alguém iria roubar seu cavalo. Seria melhor tê-lo vendido. Agora o cavalo se foi e você foi atingido por essa infelicidade.”

 

Ao que o lenhador respondeu, “Digam apenas que o cavalo não está no estábulo. Isso é um fato. Se foi felicidade ou infelicidade, como podemos saber? Como podemos julgar? Quem pode dizer o que virá a seguir?” O povo da vila ria. Pensavam que o homem era um tolo. 

 

Depois de quinze dias o cavalo voltou. Ele não tinha sido roubado. Ele fugiu para a floresta. Não só voltou, como também trouxe uma dúzia de cavalos selvagens com ele. Mais uma vez, o povo da cidade se juntou em volta do lenhador e disse. “E não é que você estava certo e nós estávamos errados? O que pensávamos que era uma desgraça era uma bênção. Por favor nos perdoe.”

 

Então o homem respondeu: “Apenas digam que o cavalo voltou e que doze cavalos vieram com ele. Isso é um fato. Se isso é uma desgraça ou uma benção não temos como saber. Estou feliz com o que sei por enquanto."

 

Desta vez, falaram pouco. Mas lá no fundo, sabiam que ele estava errado. Sabiam que era uma bênção. Com um pouco de trabalho, os animais poderiam ser domesticados e vendidos por muito dinheiro. 

 

O lenhador tinha um filho, um único filho. O jovem começou a domesticar os cavalos selvagens. Depois de alguns dias, ele caiu de um dos cavalos e quebrou as duas pernas. Mais uma vez os moradores da vila se juntaram ao redor do velho lenhador e lançaram seus julgamentos. “Você estava certo”, eles disseram. “Você provou que estava certo. Os doze cavalos não eram uma bênção. Eram uma desgraça. Seu único filho quebrou as pernas e, agora com idade avançada, você não tem ninguém para te ajudar. Agora você está mais pobre do que nunca.”

 

O lenhador falou novamente. “Vocês são obcecados por julgamento. Digam apenas que meu filho quebrou as pernas. Quem sabe se é sorte ou azar? Ninguém sabe. Temos apenas um pedaço. A vida vem em partes.”

 

Aconteceu que, algumas semanas depois, o país entrou em guerra contra um país vizinho. Todos os homens jovens da vila foram convocados para entrar no exército. Apenas o filho do lenhador foi excluído porque estava ferido. Mais uma vez o povo se juntou em volta do senhor chorando e lamentando porque seus filhos foram levados. Havia uma pequena chance deles retornarem. O inimigo era forte e a guerra seria uma luta perdida. Eles nunca veriam seus filhos novamente.

 

“Você estava certo,” eles choravam. Deus sabe que você estava certo. Isso prova. O acidente do seu filho foi uma bênção. Suas pernas podem estar quebradas mas ao menos ele está com você e, um dia ficará curado disso. Nossos filhos se foram para sempre.”

 

O lenhador disse. “É impossível conversar com vocês. Vocês sempre tiram conclusões. Digam apenas que seus filhos foram pra guerra e o meu não. Ninguém sabe se isso é bom ou mau. Ninguém é sábio o bastante para julgar.”

 

Já entedeu, né? Eu poderia continuar essa história por páginas e páginas, mas não é o caso. O caso é que, o que quer que te faça julgar este ano, será só um fato numa cadeia de eventos, mas 'a história nunca termina'. Se esse fato foi bom ou mau, sorte ou azar, benção ou maldição, como saber?

 

Então, é isso que quero fazer agora, bem no meio do meu arrepio. Sim, porque você não imaginou que eu estaria escrevendo isso sem estar ouvindo a música agora, agorinha mesmo, imaginou? Porque se imaginou, ainda não me conhece bem... Mas, então, bem no meio do meu arrepio, isso é o quero fazer agora: Celebrar quase um ano inteiro na sua vida e na minha. 

 

Ignorando solenemente que tipo de amor esteja em questão, todo mundo que eu amo e que me ama, está recebendo isso que escrevo, de uma forma ou de outra. Que saiba, então, que estou celebrando um ano na sua vida. Um ano de descobertas, conquistas, crescimento, alegrias e tristezas que te fortaleceram - se ainda não o fizeram, fica tranquilo, fica tranquila, farão. É só questão de tempo. 

 

Tudo que peço à você e tudo que te desejo neste Natal, está no final da música:

 

Remember the love! Measure in love.

Lembre do amor! Meça em amor. 

 

Oh you got to got to Remember the love!

Você tem que se lembrar do amor

 

You know that love is a gift from up above 

Você sabe que o amor é um presente de lá de cima

 

Share love, give love, spread love. Measure you life in love.

Compartilhe amor, dê amor, espalhe o amor. Meça sua vida em amor.

 

Feliz Natal

Inês Cozzo Olivares

SP, 23/12/2009

   
Nem fadas, nem bruxas

Foi ali pelo final dos anos 90 que eu conheci Leonardo Wolk. A data precisa me foge agora, mas me causa uma agradável sensação perceber que faz mais de uma década que ele se tornou, pra mim, apenas o Leo. E eu gosto muito disso. Gosto muito mais de me lembrar que ele, com seu delicioso sotaque, mudou minha forma de me relacionar com a vida.

 

Estávamos em um congresso em alguma cidade do nordeste e ele estava conduzindo um workshop com forte presença de uma linha da Psicologia conhecida como Psicodrama. O impacto que essa atividade causou em mim, fez daquele momento, um divisor de águas e eu senti a mudança mais do que em qualquer outro momento da minha vida. O nome disso é breakthrough. Não há tradução literal para o nosso idioma, mas o que mais se aproxima é “descoberta”; do meu ponto de vista é um momento de quebra de paradigma com muita consciência e auto-percepção, sem o que a mudança não acontece, sabe?

 

De fato, neste mesmo evento, ele conseguiu fazer isso comigo duas vezes. A que quero compartilhar aqui foi a segunda, quando ele pegou uma caneta, soltou e, quando ela caiu no chão, ele nos perguntou (era toda uma platéia): “Por que esse objeto cai?”. Algumas pessoas responderam que era por causa da força da gravidade, outras que era porque ele havia soltado.

 

Na medida em que ambas as respostas estavam corretas, não as debateríamos. Apenas faríamos uma reflexão sobre como essas duas respostas poderiam espelhar a maneira como estávamos vivendo, se como vítimas, deixando a responsabilidade fora de nós – força da gravidade – ou se como protagonistas que tomam as rédeas de suas vidas e as conduzem.

 

Bem, eu queria mesmo ser a autora e protagonista da minha vida e assim tenho procurado fazer desde então. Eu sou capaz de assumir minha parcela de responsabilidade pelos acontecimentos com os quais me envolvo, APESAR das 'forças da gravidade' à minha volta. Vou até onde eu alcançar.

 

O Leo já me agradeceu oficialmente por várias interações que tivémos, desde então, pelos congressos da vida, em seu livro “Coaching, A arte de soprar brasas”,  já traduzido para o português e lançado pela editora do meu amigo e editor Mahomed – a Qualitymark – e vale cada segundo do tempo que você usar com a leitura dele, seja você um coach ou não. Esse livro é pra vida. Eu não o tinha agradecido ainda. Não publicamente. Faço isso agora. Oficialmente. Obrigada, Leo querido.

 

Algum tempo depois eu conheci a Dulce Magalhães, que também se tornaria pra mim apenas a Dulce. Você tinha essa idéia de que já fazia mais de uma década, Dulce? Minha ficha só caiu agora… Cool!

 

Ela finalizou uma palestra mostrando duas histórias, ou melhor, dois “pedacinhos” de vida: do “Seu’ Getúlio, um carioca de Miguel Pereira e do “Seu” Deóclis, um mineiro de Ituiutaba.

 

A história do Getúlio apareceu no Globo Esporte porque ele foi jogar num amistoso com o Botafogo e, quando ia entrar em campo, o juíz encerrou a partida e essa foi a maior frustração da vida dele porque pisar no Maracanã era seu maior sonho. Mas, vejam vocês, ele nunca tinha contado isso pra ninguém. Como alguém poderia ajudá-lo, se não sabia disso? Quem tinha poder para ajudá-lo, aliás, era o técnico do time, certo? E o técnico do time jamais soube desse sonho do Getúlio. Nem quando a oportunidade se apresentou.

 

Aqui, a Dulce propôs uma reflexão sobre dois arquétipos do poder: A fada e a bruxa. As figuras de nossas histórias que têm o poder de transformar a realidade. A fada como sendo aquela figura linda e bondosa. Linda porque bondosa e bondosa porque utiliza todo seu poder para nos ajudar. O perigo deste mind set, desta forma de configurar nossa mente? Crescemos acreditando que basta sermos bons – e, do nosso ponto de vista, todos somos – e o Universo nos dará. Não precisamos fazer mais nada senão apenas sermos bons. O Getúlio fez isso. Sem consciência de que fazia, mas fez.

 

A bruxa, por sua vez, é feia e má. É feia porque é má (e aí crescemos achando que pessoas bonitas são mais confiáveis, mas deve ser só coincidência, né…?) e é má porque é egoísta. Ela usa todo seu poder apenas pra satisfazer suas próprias necessidades e desejos. Aí crescemos acreditando que buscar algo pra nós mesmos é ‘feio’, é mau. O nome disso é maniqueísmo. Ou algo/alguém é bom ou é mau. Se não é bom, é mau. Se não é mau, é bom. Ai, ai, ai… Num tem nada no meio? É bom ter porque se não, eu não vou ter onde ‘morar’ na classificação das coisas. Aliás, vai ter um monte de “desclassificados” porque tem mais gente comigo nessa.

 

Mas deixa eu te contar sobre o ‘Seu’ Deóclis Gomes. Ele era (já faleceu) um senhor de 91 anos, que ganhava um salário mínimo como lavrador aposentado, viúvo há 11 anos, sem posses e que gastava metade de seu salário com adubos e sementes e passava a vida batendo de porta em porta, pedindo se podia plantar alguma coisa no quintal de quem tinha um lote vago, transformando-o em lavoura farta. Sozinho, ele capinava, semeava e colhia. À época da reportagens do Jornal Nacional ele já havia triplicado a produção em um ano e entregava 60kg de alimentos por semana, 3 vezes por dia para 14 creches da cidade. Vocês acreditam nisso? Mil e quinhentas crianças comiam o que ele plantava. 1.500! Com meio salário mínimo e com 91 anos de idade!

 

O ‘Seu’ Deóclis tinha todas as desculpas do mundo pra ‘botar’ seu pijaminha e se sentar na varanda vendo a vida passar, quando se aposentou ou quando ficou viúvo. E olha que ele tinha também as desculpas mais perigosas do mundo porque verdadeiras: era pobre, não tinha ninguém pra ajudá-lo e estava com 91 anos! Mas não o fez.

 

A Lia Diskin diz que só 20% das pessoas no mundo fazem a história. Os outros 80% a sofrem. ‘Seu’ Deóclis fez história.

 

Eu estava dando uma palestra em Belo Horizonte/MG há alguns anos e passei as duas reportagens fazendo exatamente esses raciocícios e um participante, cuja tia vive em Ituiutaba, me contou que ele tinha falecido no ano anterior, mas que deixou um grupo enorme de ‘meninos’ continuando a obra dele. Sim senhor, o ‘Seu’ Deóclis fez história. Ele era uma fada que ajudou muita gente, mas era também uma bruxa. Ele disse na reportagem: “Meu prazer é saber que as crianças estão se alimentando com meus produtos”. Então, ele fazia pro prazer dele… também.

 

E foi assim que eu, uma ‘juntadora’ de coisas que fazem cócegas no raciocínio, botei tudo isso num lugar só: Minha cabeça. Quero ser protagonista, 100% responsável pela condução da minha vida; não quero ser nem fada – ninguém precisa fazer por mim, nem bruxa – não quero pra mim; quero ser FADRUXA: Uma fada que utilizou todo seu poder, inclusive consigo mesma. E quero fazer a história, não vou sofrê-la como mera vítima.

 

Sempre que desanimo (anima quer dizer alma; sempre que minha alma parece me abandonar), eu assisto novamente a reportagem sobre o ‘seu’ Deóclis e me dou uma sacudida federal do tipo: “Acorda! Você é jovem, tem saúde e tem recursos, toda sorte de recursos! Vai já começando a se mexer!”

 

Aí me animo de novo – a alma volta pro corpo – e busco meus caminhos. Eu nem vou por onde o caminho pode levar. Prefiro ir por onde ainda nem há caminho e deixar lá o meu rastro.

 

Beijos sabor contos mágicos… Hummm... reescritos.

 

Inês Cozzo Olivares

SP, 14/12/2009

 

 

Pequei

Agora, estou eu aqui, me perguntando: Por que os anjos gostam tanto da gente? 

 

A gente faz 'arte' pra caramba, 'pisa na bola' direto, sabe que o fato do coração ser mudo, é um alívio que só vale pra humano mas não vale pros anjos nem pro Papai do Céu que têm visão de raio-x que nem o Super-Homem.  Aliás, é por isso que eu gosto tanto dessa passagem da missa onde o padre pede, com muito jeitinho, por todos nós, pro Papai do céu:

 

"Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a Vossa Igreja." Porque, meus amigos, se Ele olhasse só os nossos pecados, estaríamos fritos, literalmente segundo minhas aulas de catecismo. Mas juro que minhas intenções são sempre as melhores do mundo.

 

O fato é que o meu anjo da guarda gosta pra caramba de mim, COM, SEM e APESAR DOS meus pecados... Eu já contei que peco, né? Pois é. 

 

Ontem mesmo, fui dar uma palestra na EMBRAER e pequei. 

 

A meu favor, diga-se que eu estava atolada em trabalho e esse foi um caso de record de demanda, produção e entrega porque recebi o briefing para o trabalho na véspera por volta do meio-dia, mas só pude fazer uso efetivo dele quando voltei ao escritório, por volta de 15h. Entre uma conference call com a responsável pelo RH do projeto que eu iria atender - o Legacy 500 - e outros e-mails urgentes e telefonemas e um seminário do Victor Mirshawka Jr na FAAP (mais um magistral, você precisar assistir, viu?), das 19h às 21h, eu só consegui chegar em S. J. dos Campos à meia-noite, um horário emblemático, diga-se de passagem. Um dia ainda escrevo sobre isso.

 

Trabalhei na apresentação até quase 2h da manhã e levantei às 6h pra estar pronta às 7h porque o evento começou às 8h. Ou seja, meu record entre receber um convite e fechar o acordo, é da EMBRAER: Menos de 24h! E o de receber um breafing e entregar um trabalho, também é dela: menos de 12h! 

 

Uma hora ainda paro pra investigar que fenômeno é esse do nosso mercado atual de treinamento. Ah! paro.

 

Meu pecado, né? Sim, eu conto. Tomara que ele te ajude. Como eu postei ainda ontem no meu Twitter, os erros de uns são lições pra outros. Bem, nem todos. Alguns preferem errar eles mesmos. Estão no seu direito, certo? Mas eu desejo sinceramente que esse meu deslize sirva pra sua aprendizagem como serviu para a minha.

 

Eu conduzo uma atividade, que aliás está no capítulo 4 do meu livro; chama-se 'Jogo do 123' e eu aprendi com o Edu Carmello, irmão de fé e parceiro de uma tonelada de trabalhos na jornada de uma vida; um cara criativo pra chuchu.

 

Tava eu lá, procurando dar leveza ao exercício que tem 4 fases e que eu brinco de chama-las por nomes como Basic baby (a 1ªa) e as outras de Níveis Indiana Jones, Jedai e Ninja, mas que, na verdade, não passam também de basic baby. Há uma razão neuropsicológica pra que eu faça isso, mas esse não é o 'encontro' pra explicar teorias. Fica pra outra vez.

 

Ontem, além de proclamar a primeira fase do jogo como basic baby, eu arrematei, "Praticamente nível Síndrome de Down". Ops… Pequei. 

 

De fato, pela segunda vez cometi o mesmo pecado. Porque há alguns anos, alguém, não me lembro agora quem foi, acho que meu tio Vanderlei da ABTD, me disse que achava que isso 'não pegava bem'. Não foi o bastante pra ficar gravado na minha neurologia, entendem? 'Não pega bem' tem a ver com etiqueta, um valor fraco pra mim, então, não 'vingou' o toque. Minha 'ficha só caiu' quando, ontem à noite, recebi um e-mail de um dos engenheiros que estava presente na palestra.

 

A mensagem dizia:

 

"Assisti sua palestra de hoje cedo em SJCampos e a achei ótima. Porém, (um parêntesis meu aqui: esse é o famoso 'mas' de luxo; gelou minha espinha; sempre gela.) tem uma "coisa" que não me agradou. Falo de dois momentos da palestra nos quais você fez referência à Sindrome de Down como algo ruim, como exemplo de característica de pessoas que não têm muita inteligência ou algo que o valha. (…). O fato é que sou engenheiro mas estou "quase indo" para o quinto ano de psicologia na UNIP-SJC e por isso alguns colegas sempre me procuram para falar de assuntos relacionados a psicologia e afins. Hoje, especificamente, já que foi a palestra de uma psicóloga, vários acharam estranho e queriam saber minha opinião. Resumidamente eu disse que as achei inadequadas e inconvenientes mesmo considerando que não tivesse no local nenhum pai, mãe, irmão ou conhecido de alguém com essa síndrome. Mas, e se tivesse? Seria mais constrangedor ainda. (…) Mais uma vez, sua palestra é ótima, você é muito simpática, tem muito jeito, presença de palco etc. Um abraço, boas festas e feliz 2010"

 

Eu respirei fundo e fiz como manda a música: "a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo", embora essa última, confesso, tava bem difícil. A culpa é um bichinho danado, vocês sabem, e quando ela encontra a vergonha, ui.

 

Aí respondi à ele que, na verdade, ele estava coberto de razão, porque ele estava mesmo. Ele e as pessoas que perguntaram. E que eu ficaria muito grata se ele pudesse, por favor, dizer à elas que minha "ficha havia caído" afinal. 

 

Foi mais que inadequado e inconveniente, foi desrespeitoso e eu precisava pedir desculpas. Nem sei se era o caso de pedir desculpas porque não foi exatamente uma ofensa dirigida à uma pessoa específica, mas me parecia ser a única coisa que eu poderia fazer por ora.

 

Eu afirmei à ele - e como isso é verdade! - que não correrei nunca mais esse risco no futuro. Se alguém, qualquer pessoa, pode se magoar ou ofender com isso, o custo não vale o benefício (que era mesmo apenas o de ilustrar a simplicidade e facilidade dos movimentos) Mas fui infeliz. E lamento. Maculou um trabalho que eu desejava que tivesse sido impecável pelo merecimento de quem me ouvia.

 

Agradeci pelo feedback e essa gratidão é muito sincera porque esta lição, AGORA, está aprendida. Pra sempre. Está gravada na pele. Em cada poro.

 

Vocês vêem? Na primeira vez, o argumento utilizado não reportava à uma questão ética como agora. Foi aí que o bicho pegou. E como pegou.

 

Pra fechar essa questão e contar porque eu digo que os anjos gostam da gente com, sem e apesar dos nossos deslizes, disse também ao engenheiro, quase psicólogo, que eu fico feliz em saber que uma pessoa com a sensibilidade e a coragem dele em dar feedback, qualidade raríssima nos dias de hoje aliás, estava por perto para me ajudar a me tornar uma pessoa (e profissional), melhor. Que bom seria se houvesse mais gente assim. Particularmente com a capacidade de fazer isso com a amorosidade e o respeito com que ele fez. E que seria uma honra tê-lo, em breve, como colega de profissão.

 

Hoje, papeando sobre o caso com um amigo queridíssimo, o Adi de Manaus, ele me perguntou se eu não estava sendo muito dura comigo mesma e se era mesmo preciso que eu contasse isso pra pessoas. 

 

Vocês entendem? Se eu não compartilhar, como alguém poderá aprender com meus deslizes sem precisar cometê-los? E, se eu não contar, seja por auto-preservação, seja conveniência, quão coerente e alinhada com os valores que eu prego, eu estarei? Valores como: Transparência, lisura de caráter, Permitir(se) errar, porque errar é MESMO humano. Não apenas no discurso, mas na prática! 

 

De mais a mais, é preciso extrair de uma experiência, seja ela de que natureza for, o máximo que ela puder nos dar de ganho. Neste caso, uma aprendizagem que te possibilite entender o que é NEUROaprendizagem, por exemplo. Isso funciona assim, ou uma experiência gera determinado estado (no caso, o que eu buscava para a platéia era leveza) em 100% das pessoas presentes ou não será NEURO. Simples assim. 

 

Há pouco eu falava das diferenças entre a aprendizagem convencional e a NEUROaprendizagem, mas esqueci de dizer que uma delas era essa: Se não gerarmos o mesmo tipo de estado/emoção em 100% das pessoas, não será neuropsicológico o recurso, será apenas psicológico. Mesmo que varie a intensidade e duração do estado, o TIPO de estado tem que ser o mesmo. Se uma, apenas uma pessoa, ficar desconfortável, isso é suficiente para que eu não use mais o recurso como útil para gerar um estado de leveza. Repito, o custo de UM, não vale o benefício de 1.000. Principalmente se eu tenho opções mais saudáveis, certo?

 

Então, é como eu dizia logo no início deste 'papo', Mitzrael, meu anjo da guarda, tem que gostar muito de mim, com, sem e apesar, porque hoje, já de manhãzinha, ele me dá um presentão que restituiu minha auto-estima e me deu a certeza de que fiz o que tinha que fazer.

 

Chegou um post da Rede 'Mudando para melhor', criada, organizada e magistralmente orquestrada pelo Davino Santos, um cara que é 'O' cara, num depoimento sobre nosso encontro em Santos e minha apresentação no CBTD deste ano, que foi pura massagem no coração! Obrigada Dadá. Nunca um texto cheio de "lovebacks" serviu tanto de remédio como o seu pra mim.

 

O que aprendi com isso tudo? Vou errar muito ainda. Vou pecar muito mais. Aí, eu mesma ou um anjo na forma humana - conhecido ou desconhecido - vai me avisar. Eu vou ouvir. Vou fazer o que estiver ao meu alcance pra 'consertar', vou extrair o melhor da experiência, vou socializar a aprendizagem que é o único jeito dela ser colaborativa. E vou continuar assim como sou: Um ser sem definição, em constante construção.

 

Quer vir junto? Tem vaga.

 

Beijos sabor vergonha que passa já, já…

 

 

 

Inês Cozzo Olivares (em foto tirada especialmente para a ocasião)

SP. 09/12/09


   
O comum e o extraordinário

Como assim 'Qual a diferença?'. Não existe é semelhança!

 

As pessoas têm me perguntado, depois que lancei meu livro e o DVD sobre Neuroaprendizagem, qual a diferença entre ela e a aprendizagem convencional.  Eu sei que tem resposta. Eu até vou oferecer resposta, mas primeiro eu travo nas 4 rodas mais o estepe e penso: "Meu Deus! É totalmente diferente. Por onde eu começo?"

 

A Maria Helena Matarazzo disse numa palestra certa vez que a diferença entre a aprendizagem da escola e a da vida era que a primeira partia das lições para a prova e a segunda, 100% ao reverso, começava pela prova e daí saíam as lições. Eu amei!

 

É por isso que as lições aprendidas na vida através das provas são pra vida toda e as da escola a gente esquece no dia seguinte à prova. Não eram de fato aprendizagens então, eram?

 

Na escola a gente aprende que há apenas UMA resposta certa pra cada problema apresentado e sai assim pra vida. Que doidice. Sabem quantas respostas possíveis existem pra cada um dos nossos "problemas"? 'Trocentas'. Todas certas... e erradas. E nenhuma certa... nem errada. Todas terão consequências que a gente vai administrar depois. Umas a gente vai querer, vai aplaudir, vai celebrar e outras não. Paz-ciência. Como disse Gonzaguinha na música: "É a vida. É bonita e é bonita".

 

Na escola lembram quem era o melhor aluno? Aquele que não tinha boca pra nada. "Seu filho, mãe? 'Magina. Nem precisa ficar na reunião. É um santinho. Não tem boca pra nada." Depois quer que o benditinho se dê bem na vida onde a principal competência é justamente saber se comunicar; argumentar. Ai, ai.

 

Na escola, a sua resposta tá certa ou errada. "Errado. Próximo. Alguém mais sabe?". Na neuroaprendizagem a gente constrói o saber partindo de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, que você já saiba, suponha ou intua. Tudo serve. Todos os caminhos levam à Roma. Alguns são atalhos outros não. E daí? Não posso curtir o passeio mais longo? Claro que posso.


A criança recém chegada à escola, não sabe o que é Lei da Gravidade, um pressuposto da física, mas ela já viu a água cair da torneira e nunca retornar; o vaso da mãe cair no chão e, pra sua infelicidade, não retornar inteiro à mesinha da sala -- Ui! Sim senhor, ela sabe -- na pele -- o que é força da gravidade. Já temos um começo. E se é assim com a criança, imagine com adultos.

 

É... São tantas as diferenças, que foi preciso cunhar um termo novo: NEUROaprendizagem. As aprendizagens que a gente grava em cada célula, em cada neurônio, em cada poro do nosso corpo. É preciso emocionar, mais que isso, é preciso emotizar, revestir de sentimentos aquilo que vai construir a mentalidade. De modo que seu corpo se torne sua apostila e vá com você pra todo canto.


O saber que tá fora de mim -- num livro, na internet, numa apostila, nos slides de um palestrante -- não é meu. Eu preciso me APROPRIAR dele. Se eu for capaz de repetir os dados dessa fonte externa - nem que seja feito um papagaio - então, vou transformar estes dados em informação. Quando essa informação fizer sentido pra mim, quando ela adquirir significado, aí será conhecimento. Pronto. Já faz parte do meu discurso.


Infelizmente, discurso é o que mais tem por aí. Como será a minha prática?  Tá bom que já esteja no discurso, no texto. Tá bom. Mas é só mais uma das etapas de aprendizagem vencida, não o fim em si. Que é que eu faço com isso? No meio daquele bate-boca brabo, eu peço um minutinho, por favor, que eu vou consultar a apostila do curso de gestão de conflitos ou de 'Como fazer seu casamento durar 100 anos'? Capaz mesmo que o conflito acabe, porque o outro vai rir tanto da minha cara que a raiva dele vai passar na hora. É... Deve ser assim que funciona a tal da apostila. Só pode. Dio Santo!

 

Sim... São só diferenças... A Neuroaprendizagem não grita, sussurra. Não mostra, insinua. Não canta, encanta -- canta dentro da gente. Ela não é sexy, é sensual. Não se impõe, envolve. Mestre Kan-Ichi Sato disse certa vez: "Eu não ensino e não mando. Ensinando sai cópia. Mandando sai escravo. Eu transmito meu espírito".


Em suma, Neuroaprendizagem não é nudez, é lingerie, é corsett com cinta liga e meia rendada na coxa! Às vezes branco, às vezes preto e às vezes, até, vermelho, mas nunca rosinha ou azulzinho, porque é sempre de um impacto absoluto. Você consegue imaginar a escola convencional assim? Duvi -- D - O -- do!

 

A Neuroaprendizagem é mais que boa, é ótima. É mais que ótima, é excelente. É mais que excelente, é extraordinária. E porque, na verdade, ela é mais que extraordinária, vai fazer história. E eu quero estar lá, do ladinho dela, quando esse dia chegar. E, aí, eu vou dizer: "É minha amiga, ela. Gente boa pra caramba. Só vendo. Pode confiar."

 

Beijos sabor saber que, aliás, é o significado etimológico da palavra SABER: SABOR, saboroso.

 


Inês Cozzo Olivares

SP, 07/12/2009


A vida é simples, a gente é que complica.

Aí, eu topei o convite e passei 7 dias no SPA da minha prima Milena. É o M Corporal, lá em Ourinhos (desculpa o comercial, mas prima é prima, certo? E, dessa, eu troquei até fraldinha…). E eu já tava lá mesmo pra dar palestra e fazer uma sessão de autógrafos do meu livro. Custava nadinha. Fui. Um lugar bacana pra caramba. Ótimo pra quem não tem lá muita disciplina pra certas coisas como eu. Aliás, eu sofro de excesso de falta de disciplina quando o assunto é exercício físico. Não. Eu não faço o gênero "malhadona". Nem "saradona". Decididamente. Mas eu tenho uma vantagem em relação à maioria das pessoas. Eu sei onde liga e desliga uma porção de botões dentro da gente, pra conseguir resultados mais rapidamente.

 

Por exemplo, lá na clínica tem um aparelho "mudernérrimo" chamado Manthus. É uma técnica de ultrassom associada a um estímulo elétrico -- ou seja, choquinhos -- indolor pra maioria das pessoas, que promete reduzir medidas e melhorar o aspecto de ondulação da pele (celulite e estrias), além de eliminar gordurinhas localizadas, enquanto você fica deitada(o) fazendo absolutamente nada durante 20 minutos. 

 

As estrias nunca me quiseram. Nem me queixo. Dizem que celulite é apenas o corpo dizendo: "eu te amo", só que em braile. O Ronnie Von diz que só as mulheres é que esquentam a cabeça com isso porque, pros homens, mulher sem celulite, é travesti. Em todo caso, eu tenho minha pequena porção. Só pra não pensarem que sou "traveco". Mas, já que eu tava lá, o Manthus também tava, a gente conversou, se deu bem, coisa e tal, tal e coisa... Eu sempre me dou bem com eletro-eletrônicos. Aí eu pensei, "por que não, né?"

 

Perguntei pra Paula -- gente finíssima ela -- qual era o maior ganho que ela já tinha visto desde que começou a trabalhar com o Manthus e ela me respondeu 3cm. Hummm... 3cm a menos de cintura? Em 20 minutinhos? Sem fazer nadica de nada? E sem dor? Tá pra mim! E mandei bala! 

 

Assim que ela viu meu entusiasmo, apressou-se em dizer que isso não era comum, pra que eu não me frustrasse caso não conseguisse tudo isso de resultado. Eu pensei "a bichinha não me conhece, hehehe, deixa ela" e disse à ela com um sorriso enigmático: "Aguarde e confie". Adivinhem o que deu no final da sessão? Yeah babe! 3cm goneout, fora, au revoir, xô, adios! Em TODAS as sessões! Não. Não foi sorte de principiante.

 

Eu fiz uma cirurgia em 2005 e tinha que me liberar pra voltar ao trabalho em, no máximo 7 dias. O médico, simpááático, me disse: "Nem em sonho, mocinha! (entenderam por que o 'simpááático"? o cara me chamou de 'mocinha'! adoro ele). Esse processo de recuperação e cicatrização leva 30 dias e a mocinha (ai, ai) vai ficar em repouso absoluto, estamos entendidos?" ele disse. Bravo ele.

 

Então eu disse à ele: "Dr., se eu voltar pra avaliação em 7 dias, como já tá marcado, e tiver cicatrizado, o senhor me libera pra trabalhar?" Ele riu  -- só de cantinho de boca, mas riu que eu vi, e respondeu: "Num rola". Impressionei. Tá. Num rola, mas e se rolar? Libera? E ele respondeu: "Até pago o chopp". Eu disse à ele: "Suco de laranja. Não gosto de chopp. Só o de vinho, no qual fui iniciada em 2005 e num larguei mais!" Ele disse: "Fechado" e eu disse: "Fechado!"

 

Sabem onde eu estava 7 dias depois? Fazendo as malas, me preparando pra voltar ao trabalho, feliz da vida e tomando um suco de laranja que eu não paguei. Rá!

 

O cara "discreu n'eu" e queria porque queria saber que planta eu tinha usado. Nenhuma, eu disse. E não mesmo. Fiz o mesmo processo que com o Manthus. Tem alguém capaz de conseguir isso "na sorte"?  Então é porque é possível para o corpo. Fim de papo. Agora é só fazer acontecer.

 

Eu até to num livro inglês sobre PNL e Saúde porque emagreci 35Kg em menos de 4 meses sem cirurgia e sem remédio em 2004, não ia cicatrizar em 7 dias e eliminar 3cm por sessão? Ah ia! Ô se ia.

 

Querem saber como?

 

Funciona assim, primeiro você descobre qual é o jeito certo daquela parte do seu corpo ou processo de funcionar. Qualquer bom médico te conta isso. Até um livro ou internet conta. Isso é pra você poder “conversar” com essa parte capicce? Aí vem a parte mais desafiadora (presta atenção no termo: DESAFIADORA, não difícil). Use os pressupostos da PNL que nada mais são que sistematizações simplificadas das descobertas realizadas pelas neurociências.

 

A premissa que eu vou citar já, já, nem vem mesmo da neurociência, viu? É de Alfred Korzybski, um matemático e filósofo que ficou conhecido por ter desenvolvido a teoria da semântica geral -- não confundir com a semântica, uma disciplina diferente. 

 

A essência da obra de Korzybsky é a declaração de que os seres humanos estão limitados no seu conhecimento pela estrutura do seu sistema nervoso e pela estrutura das suas línguas. Nós, seres humanos, não podemos experimentar o mundo diretamente, ele disse, só através das suas abstrações (impressões não verbais que provêm do sistema nervoso e indicadores verbais que provêm da língua). Por vezes as percepções e a língua confundem a gente que acredita, no duro, que é com os fatos que a gente tem que lidar, mas, sabem, não é não. É com o entendimento dos fatos que nem sempre batem com os fatos em si. Doido, né? Mas é verdade. O sistema desse “moço” trata de modificar a maneira pela qual nós humanos lidamos com o mundo, então, "prestenção":

 

O mapa não é território, Para entender melhor, leia o texto do link. Você vai ficar doido, mas vai ser um doido bem informado. Em tempos de Economia do Conhecimento isso me parece uma vantagem bem interessante. Se preferir ficar só com o que eu tenho a dizer agora, entenda que essa premissa significa que o que eu tenho representado dentro do meu "bestunto" (lembra da Emilia do Monteiro Lobato?) não é a realidade, é só uma representação dela. O que eu tenho representado é só uma representação... dããã... Mas, o fato é que a realidade não me limita. Minha representação sobre a realidade é que faz isso. Quem tem medo de barata, vê uma barata na sua mente de 2 ou 3 metros de altura. De uma dessas eu também teria muito medo, não vê um bichinho pequenininho que, se a gente pisar nele, ele transcende na hora -- eu nunca mato; eu transcendo; é uma questão de consciência, entendem?

 

Enfim, é impressionante as coisas que a gente é capaz de fazer quando não sabe que não é. E isso é verdade pra TUDO, tudinho mesmo! Pra mudar uma "realidade" eu tenho que acreditar nessa possibilidade. Esse é, com certeza, o primeiríssimo passo. Pra mim, depois de mais de 20 anos de estudos sobre o assunto, basta saber que já foi possível pra alguém realizar o mesmo que quero realizar, que eu acredito. Se é possível pra alguém, é possível pra mim. É só uma questão de como. Eu tenho todos os recursos. 

 

A propósito, antes que eu me esqueça, você é humano ou humana? Tem dois olhos, nariz, boca, cérebro, cabeça, tronco e membros? Então, filho(a), VOCÊ TAMBÉM TEM TODOS OS RECURSOS! Tá esperando o quê? Vai nessa!

 

Beijos cheios de reentrâncias e protuberâncias…

nos lugares “certos”.

 Inês Cozzo Olivares

SP. 30/11/09

Quando a beleza dói

Parece esquisito, eu sei. Mas é como eu sinto certas coisas. Por exemplo, Riverdance é tão lindo que dói. A primeira vez que eu vi esse espetáculo, eu chorei. Não tava cabendo tudo que eu sentia aqui dentro, então, um pouco teve que sair e saiu em forma de choro. Foi o show de Nova York. O melhor de todos.

 

Agora também, eu tô chorando. Não é de tristeza e ao mesmo tempo é. "Minhas" teorias não alcançam certas coisas que eu sinto. Não sei se eu quero que alcancem, não. Acho que a vida seria muito chata se tudo pudesse ser cientificamente explicado, ainda que eu viva disso, profissionalmente, entendem?

 

O negócio é que eu acabei de assistir esse filme no Telecine Light. Aliás, por que, cargas d'água eles chamam de light? Já vi coisas bem heavy nesse canal. Tá bom que o filme de hoje mostra coisas "pesadas" com uma leveza inacreditável, mas eu não o chamaria de leve. Não mesmo.

 

A tradução em português do título original também não alcança a beleza nem o propósito do filme. Traduziram como "Meu primeiro homem". O original é "My first mister". Por favor, mister não é homem. Não no sentido que a frase em português faz parecer.

 

É um filme poético, engraçado, cheio de tiradas espirituosas e diálogos inteligentes e ágeis. Como nos filmes antigos. Ah! Como eu adoro os filmes assim. Saio deles mais inteligente do que estava antes de assistí-los. Mas, acima de tudo, é um filme sensível. Não veja se você acha que chorar é uma fraqueza. 

 

É sobre a história de Jennifer (Leelee Sobieski), uma adolescente de 17 anos e sua relação com seu chefe Randall (Albert Brooks), 32 anos mais velho que ela. Cada qual, a seu modo, é cheio de problemas. manias e medos, mas também espirituosos e especialmente inteligentes. Cada um, à seu modo, vai transformar o outro. Aos olhos das pessoas, eles são bem esquisitos, mas, como diz o Oswaldo Montenegro na sugestiva música “Mudar dói, não mudar dói muito” no CD A Lista 2001: "Quem não ouve a melodia, acha maluco quem dança". Eu sei. Eu ouço um bocado de melodias que quem tá à minha volta não consegue ouvir... Paz-ciência, porque eu gosto muito de dançar.

 

Relações são coisas que sempre me atraem. Gosto de saber de histórias de pessoas que amam e até de pessoas que odeiam, por que não? Nietzsche disse que não se odeia quando pouco se preza, odeia-se só o que está à nossa altura ou é superior a nós. Forte isso, não?

 

Em todo caso, descobri, recentemente, uma coisa bem legal. Quando a gente chora, durante um tempo -- o tempo do choro -- a gente vê tudo embaçado. Mas depois que para de chorar e, inevitavelmente, uma hora a gente para, vê tudo com muito, muito mais nitidez. Talvez seja pra isso que serve o choro afinal. Pra gente enxergar as coisas com mais nitidez.

 

Um beijo molhado, por causa das lágrimas, mas de um jeito feliz...

Inês Cozzo Olivares

SP, 24/11/09

Essencial e fundamental

E se você acordasse um dia e o universo estivesse com um "dente" da engrenagem deslocado e dividisse sua vida em duas; uma seguindo um caminho diferente da outra?


Hoje eu acordei pensando nisso. É por causa de um episódio que eu vivi esta semana e também por causa desse filme que me marcou a vida profundamente chamado "De caso com o acaso" e que, de vez em quando, acha de achar que eu sou a casa dele porque não me sai da cabeça sempre que acho que deveria ter feito algo de um jeito diferente do que fiz. 

 

Nesse filme, a personagem Helen interpretada pela Gwyneth Paltrow, uma publicitária que acaba de perder o emprego (ótima cena pra treinamentos, aliás), volta inesperadamente para casa com a cabeça girando. Mas o caso é que, quando ela está descendo a escadaria do metrô, uma garotinha brincando com a boneca distraidamente, a atrapalha e, nesse exato momento, a  vida dela se divide em duas: Uma consegue se desvencilhar da garotinha e ainda entrar no metrô que está fechando a porta, mas a outra chega milésimos de segundos depois e perde a chance.


São apresentadas duas histórias paralelas que mostram quais os destinos que estão aguardando por Helen.

Na história um, Helen chega em casa e vê seu namorado, Gerry (John Lynch) na sua própria cama com Lydia (Jeanne Tripplehorn) e vai pedir ajuda para a melhor amiga, Anna (Zara Tunner), que a aconselha a arrumar um novo emprego. Na história dois, Helen vai trabalhar como garçonete. Eventualmente, Helen começará a desconfiar de Gerry e a relação alcançará o ponto de crise.

Alternando entre uma história e outra, mudando os aspectos da vida de Helen e seus possíveis destinos, o filme nos trás algo além de uma simples trama. Ele vai mostrar as duas vidas de Helen. Como ela transcorre, afetiva e profissionalmente, em decorrência de cada conjunto de circunstâncias. É genial! Da gente grudar na telinha e lamentar muito quando acaba. E acaba de uma das formas mais surpreendentes e inteligentes que já tive a oportunidade de ver.

 

Duvido que você assista à esse filme e não fique se perguntando o tempo todo, primeiro o que vai acontecer com ela(s), segundo, o que teria acontecido com você se você tivesse dito sim naquela noite; se não tivesse vacilado naquele dia; se tivesse escolhido aquela outra possibilidade, caminho, oportunidade, chance... É de enlouquecer! Ainda bem que tem aquele final...

 

Tá na cara que o episódio que mencionei tem a ver com o fato de que eu poderia tê-lo impedido de acontecer. Não que o resultado da minha ação tenha sido algo catastrófico. Não é isso. É só dessas coisas que doem por um tempinho...

 

Eu trabalho com Neurociências. Um assunto árido que só vendo. Recentemente, eu fiz uma apresentação. Eu sempre divido minhas apresentações em blocos e faço checagens ao término de cada bloco antes de iniciar o próximo porque, convenhamos, avaliação ao final só serve pro próximo trabalho, certo? Se eu não corrigir a rota deste nele mesmo, como isso ajudará esse público, não é verdade? Então eu faço. A cada checagem, a mesma resposta geral: "Tá tudo ok. Pode seguir." Tava todo mundo aprendendo e se divertindo ao mesmo tempo. Sempre que eu perguntava se estava tudo bem, se estávamos juntos e caminhando a contento, todos me respondiam que sim. Beleza. Então eu sigo, uai.

 

Aconteceu que, por exatas três vezes eu permiti que algo não programado acontecesse. Permiti que uma pessoa, que não eu, fizesse três intervenções. A mais longa das três, durou uns três ou quatro minutos. Portanto, foram mais ou menos quatro minutos fora do roteiro num universo de oito horas! E, mesmo assim, sem sair do foco temático. Como em momento algum houve qualquer queixa disso, entendi que estava tudo bem e prossegui. Mas, essas três intervenções, mesmo que muito curtinhas, apareceram em três avaliações como uma mácula num dia perfeito. Eu chorei. Não por não ter obtido 10 em tudo e de todos. Não, não. Não tenho esse tipo de preocupação. 

 

Foi porque fiquei pensando que povo triste a gente pode se tornar com esse medo de dizer algo com que nos sentimos incomodados, diretamente à pessoa que o fez, no momento em que aconteceu e com assertividade. Ainda mais quando um espaço pra isso está francamente aberto. E temo que essa inabilidade se estenda à outras questões muito mais relevantes na nossa vida, sabem? 

 

Foi também porque me lembrei de um outro momento da minha vida com o qual me entristeci.

 

Há alguns anos, eu e meu marido estávamos visitando o Museu do Louvre, e estávamos já há três horas na fila pra ver o quadro mais famoso do mundo, a Mona Lisa do Leonardo Da Vinci. Quando, finalmente chegou nossa vez de ver a famosa obra, eu ouvi o cara na minha frente reclamando que tinha uma manchinha no canto inferior direito da redoma de vidro que protegia o quadro e que isso era absurdo, como alguém permitia que aquilo acontecesse, etc, etc, etc. Prestenção povo! O camarada veio lá dos "Istaites" (ele não tinha sotaque britânico), ficou três horas, de pé, numa fila enorme, tava diante do quadro mais famoso do mundo, só tinha alguns segundos pra apreciá-lo porque os guardas ficavam mandando as pessoas saírem logo pra dar a vez aos próximos e só conseguia enxergar aquela manchinha! Que triste isso...

 

Voltando à minha inquietação inicial, fico pensando: "Se eu tivesse agido diferente naquele exato momento da apresentação, será que eu teria saído sem essa mácula? Será que eu teria ajudado aquelas pessoas a olharem pro quadro ao invés de olharem pra "manchinha" no vidro? Será?" Nunca saberei...

 

Aí, duas coisas me curaram da tristeza: A primeira foi uma palestra que assisti no 2º Congresso de RH do ABC, brilhantemente conduzida pelo Mário Sérgio Cortella sobre Espiritualidade, cuja proposta era pensar sobre a vida. O que, na nossa vida, considerávamos essencial e o que considerávamos fundamental. Essencial é aquilo que não pode não ser. O que faz com que a gente não desperdice a vida. Tipo Amor, por exemplo. No meu caso, Amor é essencial. Fundamental, é o que dá apoio pra gente chegar ao essencial. Dinheiro é fundamental, não essencial. Sem ele temos problemas, só ele não nos basta. Ele é um meio, não um fim. Carreira é fundamental, não essencial. Ela é apenas uma das formas que temos de nos expressar na vida. Expressar-nos é essencial!

 

Essa reflexão me salvou porque, pra mim, conseguir que todas as pessoas saíssem daquela sala  felizes, era fundamental. Que a pessoa que amo tivesse um espaço pra se expressar, sem nenhum prejuízo real pra ninguém, era essencial.

 

Se eu tivesse impedido o episódio; se eu não tivesse deixado acontecer; se eu o tivesse controlado mais firmemente; se... 

 

Mas eu vou dormir agora com duas certezas: A de que fiz o que era essencial e uma frase profundamente sábia da filósofa mirim Daniela Cozzo Olivares, minha irmãzinha caçula, que me diz sempre: 

 

- "É. Se eu plantasse um pé de 'se', talvez nascesse alguma coisa.

 

Grande Dani! Você, às vezes, é melhor que maracujina.

 

Beijos sabor erva cidreira (adoro erva cidreira e ainda me acalma "as tristeza")

 

 

Inês Cozzo Olivares

 

SP, 14/11/2009

Eu e a música

Vocês sabem que quando estou triste, o que mais faço é ouvir música, né? Então, tenho ouvido muita música ultimamente... Por causa do meu vaso Ming... Aquele que quebrou...

 

Não sei se contei pra vocês, mas, pra funcionar como remédio, não podem ser músicas que a gente associe ao que (ou à quem) nos deixou triste, pra início de conversa, porque isso só aumentaria a produção dos mesmos peptídeos que "produzem" tristeza, ou seja, é suicídio em câmera lenta. Não, não. Tem que ser músicas que simplesmente te coloquem pra cima. Sem motivo nenhum.

 

Burt Bacharach faz isso comigo. Ray ConniffBeatlesLighthouse Family e Carpenters também. E toda a trilha sonora do filme "Escrito nas estrelas" (Serendipity). Melhor deixar isso de citações prá lá que a minha lista é enorme. Insana mesmo. Na minha última contagem, eu tinha quase 11 mil músicas no meu iTunes. São 32,4 dias de músicas sem desligar nunquinha. É insano ou não é?

 

Bom, eu ouço músicas. E tem essa música do Burt Bacharach - Reflections - da trilha sonora do filme Horizonte Perdido (Lost horizon) de 1973...

 

1973, foi o ano em que eu descobri o Amor. Eu tinha 11 anos de idade e sentava na mesma carteira que ele. Naquela época era assim, duas crianças dividiam uma mesma carteira. Estávamos no último ano do primário; dividíamos o lanche e eventuais (bota eventuais nisso) doces, comprados no carrinho que ficava na porta da escola. Particularmente a paçoca AMOR.

 

Às vezes a gente esquece que coisas simples como estas são profundas e importantes. E elas nos fazem um bem enorme. Deveríamos nos lembrar mais vezes. Vou instituir o dia internacional de só lembrar de coisas boas. Como será que se institui um dia internacional?

 

Aqui acho importante fazer uma observação, pro bem do meu casamento, que fez bodas de prata em maio deste ano. É sobre velhos e novos amores. Tem um trecho na letra da música Monalisa do Jorge Vercillo que eu acho genial. Ele diz:

 

"Não se prenda

 

 A sentimentos antigos

 

 Tudo que se foi vivido

 

 Me preparou pra você

 

 

 

 Não se ofenda

 

 Com meus amores de antes

 

 Todos tornaram-se pontes

 

 Pra que eu chegasse a você"

 

(baixar a música em MP3)

 

Não é genial? Ele coloca seu amor atual como sendo seu objetivo maior na vida -- aquilo para o que ele se preparou a vida toda -- e ainda assim engrandece todos os seus amores passados na medida em que o tornaram um ser humano melhor! Eu sonho com um tempo em que todos e todas terão uma visão semelhante. Enquanto isso não acontece, ofereço meu ombro amigo aos que sofrem de ciúme. É gente pra chuchu. De vez em quando, até eu "escorrego"...

 

Como eu dizia, há alguns parágrafos atrás, tem essa música Reflections do Burt Bacharach que, tanto letra quanto música, me fazem sentir muito bem sempre que tenho dúvidas sobre mim e minhas circunstâncias ou estou triste.

 

Claro que preciso fazer minha própria transdução na letra. Transdução, em Biologia, significa transferir o material genético de uma célula para outra, e isso é feito ou por intermédio de um vírus ou de um bacteriófago. Deve ser o máximo poder dizer: "Profissão? Bacteriófago".  O sujeito deve ganhar o respeito do ouvinte imediatamente. Eu acho.

 

Mas, em Física, transduzir é transformar uma energia em outra de natureza diferente. Magic. Tradução é tão literal quanto seja possível (respeitadas as culturas e formas diferentes de transdução de mundo). Transdução é precisamente o oposto. E as palavrinhas são tão parecidas... Não é mágica a linguagem?

 

Sempre que você quiser impressionar uma platéia e não estiver a fim de ficar dizendo: "se você é homem, pense na sua esposa; se é mulher, pense no seu marido" toda hora, diga apenas "Vou falar do meu caso e você faz sua própria transdução para o seu caso, ok?" Nossa. Impressiona muito. Experimenta.

 

Pois então, neste caso, transduzir quer dizer que, quando, na música o compositor diz "Quando você olha para si mesmo, você gosta do que vê?", transformo o sentido literal (no espelho eu vejo meu corpo; o "tangível") para o sentido poético, metafórico (minha alma, psiquê, personalidade e por aí vai...; o intangível).

 

Às vezes, eu me esqueço quem sou e minha visão de tornar este, um mundo melhor do que era no dia anterior ou, mesmo, há um segundo atrás. Trabalho de formiguinha, claro. Sei que não farei isso sozinha, mas também sei que, sem mim, isso não será feito. Essa consciência me impulsiona pra minha missão que é a de me tornar uma pessoa melhor. Não melhor que outra pessoa. Melhor que eu mesma, ontem. Gosto também de ajudar quem o desejar, a fazer o mesmo.

 

Sempre que me esqueço disso, e é quase sempre quando fico triste, essa música me coloca nos trilhos de novo. "Se você gosta do que vê, você é a pessoa que você deveria ser". E, quando não gosto do que vejo, tomo uma atitude para mudar. Pode ser voltar a fazer o que fazia e parei ou mudar radicalmente mesmo. Tudo depende da consciência que surge e que, antes não havia.

 

Não sei se vocês sabem, mas não existe isso de perder a consciência adquirida. Einstein disse que a consciência que se expande, nunca mais volta ao seu tamanho original. Claro que ele não estava se referindo a metros ou coisa que o valha, mas à capacidade de compreensão dos mecanismos do Universo.

 

Pois é. Eu posso, depois de saber que meu papel de bala no chão contribui pras enxentes, continuar, por automatismo ou conforto, jogando o benditinho, mas não posso dizer, nem pra mim, nem pra ninguém "Eu não sabia", certo?

 

"Porque seus reflexos refletem em tudo que você faz, e tudo que você faz, reflete em você". Não que eu já não soubesse disso antes de ler a letra da música, mas, puxa vida, quanta coisa eu já "sabia" e, simplesmente deixei de praticar uma ou outra vez. Sempre que a emoção "pilota" minha vida, a minha pobre e indefesa razão "dança". Eu já expliquei isso antes, né? Por isso é bom ter um algo ou um alguém te "cutucando" de quando em vez. Pode ser um filme, um texto, uma imagem, uma história, uma vinhetinha de TV ou uma música.

 

Eu queria que todas os artistas do mundo tivessem essa consciência. A consciência de que eles educam ou deseducam mais que os pais, a escola e a sociedade JUNTOS! Então, eles passariam a só educar e pra um mundo melhor com pessoas cada vez melhores.

 

Fique com a música. Ela vai levar você muito, muito mais longe do que eu seria capaz escrevendo "um monte" aqui.

 

Beijos sabor doce de cidra

Uma mistura do amargo da tristeza pelo meu vaso Ming com o doce das músicas que tratam de curar minha tristeza

 

Inês Cozzo Olivares

Ourinhos, 02/11/2009


 

REFLECTIONS

Performed by Liv Ullman

 

When you look at yourself do you like what you see?

Quando você olha para si mesmo, você gosta do que vê?

 

If you like what you see you're the person you should be

Se você gosta do que vê você é a pessoa que você deveria ser

 

Cause your reflections reflects in everything you do

Porque seus reflexos refletem em tudo que você faz

 

And everything you do reflects on you

E tudo que você faz reflete em você 

 

 

When you wake up each day do you like how you feel?

Quando você acorda cada dia, você gosta de como você se sente?

 

If you like what you feel you've got nothing to conceal

Se você gosta do que sente, você não tem nada a esconder

 

Cause your reflections reflects in everything you do

Porque seus reflexos refletem em tudo que você faz

 

And everything you do reflects on you

E tudo que você faz reflete em você 

 

 

Doing something for someone else

Fazendo alguma coisa pra alguém

 

Isn't really for someone else

Não é realmente pra outra pessoa

 

It does twice as much for you as something you do

Isso faz duas vezes mais por você do que algo que você fêz

 

Just for yourself

Apenas pra si mesmo

 

When you lay down to sleep do you like all your dreams?

Quando você se deita pra dormir, você gosta de todos os seus sonhos?

 

If you like all your dreams life's as happy as it seems

Se você gosta de todos os seus sonhos, a vida é tão feliz quanto parece.

 

Cause your reflections reflects in everything you do

Porque seus reflexos refletem em tudo que você faz

 

And everything you do reflects on you

E tudo que você faz reflete em você 

 

Você também tem um Ming?

Você sabe o que é uma relação "Vaso Ming"? Eu vou te contar. Mas antes, preciso que você saiba o que é exatamente um Vaso Ming. É uma peça de colecionador. Um vaso da famosa Dinastia Ming. Ming foi o "cara" que governou a China de 1368 a 1644. Um desses vasos alcançou o preço record de 8 milhões de euros em leilão, pela Casa Christie's! Imagina só isso! 8 milhões de euros!

 

Já deu pra perceber que um vaso Ming é uma preciosidade, né? Então, é isso. Estou querendo saber se você tem uma relação com alguém muito, mas muito precioso mesmo pra você. Eu tenho. Acho que todo mundo tem.

 

Um vaso Ming é algo que você entende que é valioso, insubstituível, único no mundo -- não existem dois iguais, sabe? Por isso, a gente cuida dele de uma forma que não cuida de nenhum outro vaso. Olha pra ele com um orgulho que não tem por nenhum outro vaso. Fala dele com uma alegria e felicidade que não sente por nenhum outro vaso. Aliás, a gente nem fala de outros vasos quando tem um Ming. Pra quê? Só ele vale a pena.

 

A gente sabe que um Ming não é pra "qualquer um" e que, por isso mesmo, ter um é como ganhar na loteria, como ser um "escolhido" entre tantos outros "mortais". É como ser alguém especial. Tão especial quanto o Ming que temos.

 

É, decididamente, a gente é muito feliz quando tem um Ming só nosso...

 

Acontece que o meu Ming sofreu um acidente. Você sabe, acidentes acontecem. Digamos que alguém, desastradamente, derrubou meu Ming e ele trincou. Chegou mesmo a quebrar um pedacinho na borda. Mas, é claro que, sendo uma preciosidade, era impossível pra mim simplesmente jogá-lo fora. Então, eu fiz o que qualquer um no meu lugar faria (eu acho); colei com super bonder. Ficou feinho, mas, pelo menos, estava inteiro de novo. 

 

Era fundamental também esconder das pessoas a parte danificada, compreendem? Eu queria que todo mundo continuasse achando meu Ming maravilhoso. Afinal, um vaso Ming não deixa de sê-lo só porque está colado, deixa? Ou será que eu tava me enganando...? Uma coisa é certa, um Ming trincado não vai a leilão, nem vale 8 milhões de euros, vale? Então, eu temo que ele só seja mesmo um Ming pras pessoas que vêem de longe e só a parte "boa" dele.

 

Algumas vezes, secretamente, eu acho que escondi das pessoas que ele estava trincado porque eu me sentia especial com ele e, se ele deixasse de ser um Ming, eu poderia deixar de ser especial. 

 

Não importa. O que importa é que a única maneira de esconder o "defeito" do meu Ming, era virar a parte "estragada" para a parede, de modo que ninguém jamais a visse. Desconfio que fiz isso também pra que eu não ficasse vendo que ele não era mais o mesmo. Claro que, neste caso, eu também não podia deixar as pessoas chegarem muito perto dele ou tocá-lo, porque isso denunciaria minha farsa, não é mesmo? Então, desde o acidente, eu não falo mais do meu vaso Ming. Também não chamo mais a atenção das pessoas pra ele, nem sinto mais orgulho em tê-lo comigo. Ele apenas está lá. É triste.

 

As pessoas continuam elogiando a mim e ao meu Ming. Elas ainda o acham o máximo e me dizem:

 

- Ah danadinha... escondendo o ouro, heim? Nem contou que tinha um Ming!

 

Eu as escuto e sorrio. Elas não sabem que meu vaso não é mais um Ming. Mas eu sei...

 

Agora, fico feliz e aliviada em saber que, por mais que a metáfora se encaixe na minha experiência nesse momento, do meu amigo-ming que me decepcionou profundamente, gente não é vaso. Então eu devo sarar loguinho dessa tristeza... E, quando eu conseguir separar os comportamentos do meu amigo da pessoa que ele é, meu Ming voltará a valer 8 milhões de euros. Pelo menos, pra mim...

 

Beijos sabor "quase lá"...

 

Inês Cozzo Olivares

13/10/09

 

Os 9 pecados capitais
Eu e o Luís Fernando Veríssimo temos algo em comum, pra mim também a musa inspiradora, na maioria das vezes, é meu prazo de entrega. Mas nunca aqui. Nunca neste espaço de escrever o que penso e sinto. Por isso ele é meu oásis. Aqui só escrevo o que quero, quando quero e como quero. E só se eu sentir pra valer.  Felizmente tenho encontrado muito eco por aí. Que bom! Isso me deixa muito feliz.

Hoje, duas coisas me ocuparam muito o pensamento. Ter revisitado um filme que me impressionou muito e o fato de ter pensado coisas que o Papai do céu não aprovaria. Ou seja, pequei. Em pensamento, mas pequei. Vejam só que imprudência a minha, fazer isso tão próximo do Natal. Claro que ninguém, além de mim, faz isso, certo? Pensar coisas que supostamente não deveria pensar. Então, o mundo salvo. Mas só to contando porque vocês não sabem mesmo o que foi que eu pensei. Nem vão saber. Estou protegida por uma condição incontestável:

O coração nasceu mudo
Deus fê-lo assim de prudente
Para que não conte tudo
O que vai dentro da gente
(Floriano de Lemos)

Eu li essa trovinha quando tinha mais ou menos 10 anos de idade. Ela veio de brinde no saquinho de Gotas de Pinho Alabarda (alguém lembra disso?), que eu adorava na época. Eram balinhas de menta com açucar cristalizado que derretiam no calor e melavam tudo. Mas é bem capaz de eu ter sido mais apaixonada pelo brinde do que pelas balas propriamente ditas. Eram adesivos com a figura de duas pombinhas se "beijando" de fundo e diferentes textos, pra colar no caderno. Os meus eram cheios desses adesivos. Frases de efeito e trovas... de amor, claro. Eu sempre fui muito romântica. É claro também que eu não me lembrava do nome do autor porque a lição foi tão impactante que superou o mestre e eu o esqueci. E viva o Google! Também não me lembrava do nome das balinhas. Afinal eu tinha só 10 anos, mas o Tuim (meu marido) já tinha 23. Ele lembrou. Ele é meu "fornecedor" oficial de informações como a maioria das pessoas já sabe. Todas e quaisquer. Coisa de geminiano. Mas o ascendente devia ser em biblioteca. Não é, mas devia. Só pode. Ainda bem. Conheço um monte de gente que deve ter ascendente em porco-espinho...

Bom, o fato é que essa trova-verdade me acompanha desde então. Toda vez que eu penso algo sobre o que minha consciência manda uma alarme do tipo: "se fulano soubesse que você pensa ou sente isso, ai, ai, ai", a frase surge imediatamente: "O coração da gente é mudo..." e eu completo apenas com um "Graças a Deus" e isso me faz um bem danado.

Sabe aquelas coisas de ouvir uma pessoa arrogante e cheia de si mas que na verdade, pobrezinha, é fraquinha, fraquinha e pergunta pra gente: "E então? O que você achou? Não tá o máximo?" E você faz "Hummmm..." como quem tá pensando no adjetivo mas tá mesmo é ganhando tempo e ela tão hipnotizada pela própria obra que nem nota e aceita o "Hummmm" da gente como se fosse o prêmio Nobel? Pois é, essa é uma dessas horas em que penso: "O coração da gente é mudo..." e agradeço silenciosamente por isso.

Sempre que eu penso algo que não deveria pensar, como se não pensar fosse possível, essa trova vem me acalmar os medos e eu simplesmente fico em silêncio, devidamente protegida pelo fato de que "o coração da gente é mudo..." graças a Deus. Acho que eu queria te "emprestar" esse meu recurso. Espero que você faça bom uso dele nos momentos adequados.

Agora, existe um tipo de silêncio que eu acho que a gente deveria rever. E foi revisitando o tal filme que me impressionou muito que me dei conta disso.

No filme "O caçador de pipas" de Khaled Hosseini, em conversa com seu filho Amir, Baba afirma que existe apenas um pecado no mundo: o do roubo. Aí, ele explica essa afirmação, dizendo ao filho:

- Quando você deixa de dizer para alguém alguma coisa que você acredita ser "verdade", você está "roubando" o direito dele saber o que você sente a seu respeito.
- Quando você mata alguém, você está "roubando" o direito de outras pessoas conviverem com a pessoa que você matou.
- Quando você "maltrata" alguém, você está "roubando" o direito dessa pessoa de ser feliz.
- Quando você mente para alguém, você está "roubando" o direito dela conhecer a verdade.

Aí eu fiquei pensando: "Caramba! Será que isso se encaixa em absolutamente tudo!"?

Quando eu me calo diante de uma injustiça, estou "roubando" do mundo a oportunidade de, conhecendo-a, lutar contra ela. A omissão é um roubo de direitos? Um "roubo" de exercício de cidadania? Ou "viajei" grandão aqui?

Mais que isso, eu fiquei pensando, será que posso usar esse princípio, por exemplo, para reduzir os 7 pecados capitais à apenas um? Roubo? Trocar 7 por apenas um me parece um ótimo negócio, não te parece?

Bem, não sei se vocês sabem, mas eram 9 os pecados capitais, aí a Igreja achou por bem juntar dois em um (orgulho e vaidade) e suprimir o outro, a culpa que, aliás, passou a ser uma "ferramenta" ao que a História mostra. Interessante, não?

Mas vamos ver o que acontece quando penso em cada um dos que "sobraram" sob a ótica da personagem Baba de "O caçador de pipas".

Orgulho/Vaidade: Ah! eu acho que "roubo" do outro o direito aos seus próprios méritos. Sabe? Algo como "I'm the best. Fuck the rest." Ops... Nome feio... Lá se vai outro presente de Natal...

Ira: Me parece que "roubo" do outro a razão, através da agressividade ou mesmo da violência. Pra dizer o mínimo, porque, dependendo da intensidade da ira, há quem "roube" a própria vida do outro. Pelo menos isso é o que eu vejo por aí quando observo as atitudes de pessoas iradas.

Melancolia: Essa ficou curiosa pra mim. Eu tendo a me "retirar do mundo" quando estou melancólica (ah! sim. eu fico melancólica às vezes). Então, eu estaria "roubando" daqueles que me amam, o prazer da minha presença? Ou será que seria mais para, já que os problemas são parte da minha vida, se eu me recolho em mim mesma e não os divido com alguém, eu "roubo" de quem me ama a chance de me amar o bastante e mostrar isso me dando apoio e suporte emocional? Preciso pensar mais nisso...

Inveja: Seria, talvez, "roubar" de alguém o direito de ser melhor que eu em alguma coisa? Quando me pergunto "Porque ele tem (é, consegue, pode) e eu não?", estaria eu "roubando" dele o direito de ter (ser, conseguir, poder) o que não tive (fui, consegui, pude) por ele ter feito algo num momento qualquer e eu não? Com a inveja sempre vem a crítica. É uma pena porque, que eu saiba, tornar o outro pior, não faz ninguém melhor. No Islã, a inveja é um pecado tão terrível que, para certificarem-se de não o estar cometendo, quando as pessoas dizem "Que belo carro" imediatamente dizem também MASHAALLAH que significa "é a vontade de Deus". Gostei. Acho que vou adotar pra mim.

Gula: Se eu como mais do que necessito, estaria roubando de alguém o direito de também se alimentar? Olho à minha volta e vejo tanta gente acumulando a ponto de deixar estragar sem distribuir. Isso dói. Dói mais ainda pensar na ironia (será esse o melhor adjetivo?) de que vivemos num mundo capaz de distribuir, no mínimo, um e-mail gratuito para cada humano e humana do planeta, mas não desenvolvemos a capacidade de distribuir um prato de comida grátis para cada humano e humana. Que pena que as pessoas não sejam virtuais...

Luxúria
: Hummm... Como ficaria esse aqui? O que eu estaria roubando de alguém neste caso? O Marquês de Sade disse que não existe paixão mais egoísta que a luxúria. Então, partindo deste prisma, o que eu poderia estar "roubando" do outro...? Não consigo. Simplesmente não consigo encontrar algo pra essa aqui. A definição de Luxúria diz que ela seria uma porta de acesso a outros pecados, tipo masturbação. Bem, na Bíblia... Já o Woody Allen disse: "Não despreze a masturbação. É fazer sexo com a pessoa que você mais ama." Faz sentido... Foi ele também que, ao ser questionado sobre se achava o sexo sujo e indecente, respondeu "Nem sempre. Só quando é bem feito". Mas eu devo ter sérios problemas com este aqui porque, se não vejo problema nele, o problema devo ser eu. Agora eu to seriamente preocupada comigo... Mas, espera só um meio minuto! Se eu considerar as formas de prazer que ferem quem não quer ser ferido incluídas aqui, então dá pra ver como sendo o "roubo" do direito do outro ao seu próprio tipo de prazer, não dá? Ufa! Que alívio! Dessa eu escapei.

Avareza: Essa é meio óbvia, não é? Tem cheiro de "roubar" exatamente da mesma forma que comida, só que, neste caso, o acúmulo é de dinheiro mesmo. Será que esse povo não vê que caixão não tem gaveta? Se não vai levar pra quê acumular? Só pra lembrar, avareza tá "um tom" acima da simples cautela, certo? Uma vez eu li essa impressionante teoria de um economista que dizia que se toda a riqueza do mundo fosse dividida igualmente entre a população economicamente ativa do planeta, qualquer um que ganhasse mais que US$ 1,77 (se não me falha a memória) estaria "roubando" de alguém o direito à sua parte. Impressiona, não impressiona? Eu fiquei pensando um bocado, desde então...

É... viver pode ficar bem complicado quando se começa a ter consciência...

Agora preciso mesmo confessar algo. Eu não sei se acredito em pecados. A Adriana Falcão, diz que pecado é uma coisa que os Homens inventaram e, aí, inventaram que foi Deus que inventou. Eu acho que concordo muito com ela nisso. Então, é claro que preciso fazer alguma coisa com isso, entendem?

Acho que vou por aqui, querem ver? Também mexeu muito com minha cabeça uma proposta do Allan Ferraz dos Santos Jr. durante o seminário Trilogia do fluir (espetacular!) em junho deste ano realizado pela OMNIS MIND. Na minha modesta opinião de estudiosa da PNL desde 1984, o Allan é o melhor master trainer em PNL Sistêmica da América Latina! Eu estava neste seminário quando ele nos fez uma proposta interessantíssima. Deveríamos pensar em cada um dos pecados capitais, não como pecados, mas como características humanas e em como elas seriam se as pessoas estivessem atuando na vida com essas características bem centradas e equilibradas.

Vejam que interessantes as possibilidades.

A gula com centro se transforma no prazer de comer, respeitando a saciedade; a avareza, em economia; a luxúria em desejo e busca saudável pelo prazer de ambos; a ira em assertividade e/ou coragem; a melancolia em interiorização e reflexão, respeitando nossa necessidade de nos isolarmos quando a tristeza aparece; a inveja em admiração com consciência pelas qualidades de quem admiramos e o orgulho/vaidade em auto-estima e consciência do próprio valor, independentemente do que outros pensem a nosso respeito.

Eu adoraria saber de outros pontos de vista sobre isso... Que bom que é só responder por aqui mesmo.

Resta saber, se a danadinha não tivesse sido retirada da lista de pecados capitais, o que seria a culpa com centro, com equilíbrio...  Vou deixá-los com as reticências para que saboreiem as possibilidades por si mesmos(as) e porque mesmo a Lua, às vezes, tem o formato de vírgula pra mostrar que nem no infinito, existe um ponto final.

Beijos sabor morango com chocolate
(isso seria luxúria ou simples gula? Santa dúvida Batman!)

Inês Cozzo Olivares
SP, 19/10/09
Mas...
Você já percebeu o estrago que uma simples palavrinha pode fazer? Uma palavrinha de nada... três letrinhas... que podem deixar a gente muito feliz ou arrasado. Já notou? Pois é. Acontece. Não sei se você tem consciência de que é essa palavrinha que estraga tudo ou anestesia dores, mas o fato é que a Neuropsicologia já provou isso, sabe? Com tudo quanto é equipamento que precise pra dizer que tá provado, aliás. Então pensei "Por que não fazer uma crônica sobre isso?" O "troço" é um bocado técnico. Vamos ver no que é que dá... Quem sabe eu não invento, como me sugeriram, as Neurocrônicas. Tomara.

Veja se você consegue ver o desenho da boca se formando quando você diz à alguém:

- É possível, mas é difícil.

E se consegue ver o desenho exatamente oposto quando diz:

- É difícil, mas é possível.

Consegue? Eu consigo. Aliás, eu já vi muuuito isso acontecer. Isso já aconteceu comigo! De dentro pra fora. E as palavras são EXATAMENTE as mesmas! Todas as cinco!

Eu tava assistindo ao seriado Friends -- pela milésima vez, claro, porque ele é muito genial pra ser visto uma vez só -- quando me deparei com essas duas cenas.

Só pra contextualizar, Friends é uma sitcom (abreviatura em inglês para "comédia de situações") com 6 amigos, 3 homens e 3 mulheres, de personalidades bem diferentes e suas situações cotidianas hilárias ou emocionantes, mais hilárias que emocionantes, diga-se de passagem.

O episódio em questão é aquele em que a Rachel (Jennifer Aniston) está morrendo de amores por um cliente chamado Joshua e consegue arrastá-lo pro apartamento dela com a desculpa de uma festinha de bota-fora pra namorada do Ross (David Schwimmer). Depois de uma cena hilária onde ela "paga um mico federal" vestida de Cheerleader -- animadora de torcida -- by the way, neste link você verá meu sobrinho Andrey "zoando" no Powder Puff Cheer Juniors nos EUA onde foi cursar a High School. Achei que seria mais divertido assistir a um monte de moleques "tirando onda" de menina do que às próprias. Os homens que me perdoem se queriam ver "filezinhos", como se diz em Fortaleza, segundo minha cliente e amiga Beth da J. Macêdo! Imaginem... filezinhos... Melhor nem comentar.

Retomando, no seriado, eles, Rachel e Joshua, vão pro quarto dela conversar e ela confessa que está muito interessada nele e ele admite que está muito a fim dela também, mas... e ela imediatamente o interrompe e diz: "Oh! Não! Sem mas..." com carinha de "cachorro pidão", sabe como? Aí ele diz "Tá bom... sem mas." E prossegue dizendo: "No entanto" ao que ela interrompe outra vez, já bem desanimada e diz "Isso é só um 'mas...' de luxo". Aí ele vai explicar pra ela que tá saindo de um relacionamento agora e que talvez esse não seja o melhor momento pros dois, e blá, blá, bla porque ela não tá ouvindo mais nada, claro. Só sofrendo.

Pois é, você já ouviu falar em Marilyn Ferguson? Ela é a autora de um best-seller chamado A conspiração aquariana, que marcou época e é mesmo fabuloso! Ela também criou um boletim na década de 70 chamado "Brain/Mind Bulletin" e esse boletim trazia uma série de informações sobre pesquisas de ponta da época, popularizando as idéias de neurocientistas como Karl Pribram e Candace Pert, físicos como Fritjof Capra e David Bohm, psicólogos como Jean Houston entre outros.

Num desses boletins, ela publicou uma experiência genial que mostrava como a palavras "mas" e todos os seus sinônimos (porém, contudo, entretanto, todavia, no entanto...) agia sobre nosso cérebro/mente.

Por ser uma conjunção adversativa, sua função é justamente opor as duas partes de uma sentença. Ora, o que se opõe, se não "apaga" o que veio antes, no mínimo, reduz a potência.

Imagina a cena:

Ela: Tô bem assim?
Ele: Tá ótima, mas tem que ser esse sapato mesmo?
Ela: Mas o quê? O que é que tem meu sapato? (já decepcionadíssima porque, convenhamos, ótima uma ova, tem um "mas" aí)
Ele: Antes do fim da festa você vai ficar me infernizando pra voltar, que não aguenta mais, que isso e que aquilo, e seu sapato tá te matando...
Ela: Mas eu não vou mesmo! Eu não faço essas coisas! (a gente nunca tem consciência que faz essas coisas. Aliás, vocês se surpreenderiam como a consciência da gente é seletiva...)
Ele: Ah! mas vai MESMO que eu sei. Já vi esse filme...

E, de mas em mas, a guerra tá armada. Aliás, pra que tanto "mas" afinal? O que aconteceu com a conjunção aditiva? Lembram do E? Tão bonitinho ele. Sabia que o outro nome da conjunção aditiva é copulativa? Sério! Duvido que se alguém te explicasse na escola o que é copular, você ia esquecer essa conjunção, mas duvido mesmo! Nessa idade os hormônios estão simplesmente explodindo! E duvido que você não a preferisse ao 'mas'. Duvido!

Na prática, imaginem isso:

Ele: Tá ótima! E ficava melhor ainda com aquele sapato baixinho, super elegante, de ontem.

Quem discute com um ótimo somado à outro? Lembra? E? Conjunção aditiva? Adicionar = somar? Isso MAIS aquilo? Aliás, por que cargas d'água, nas aulas de português, não nos mostram as vantagens de falar ou escrever bem NA VIDA? Não pra prova; pra vida! Diz pra mim que entendendo a diferença entre as conjunções (palavras de ligação entre frases numa mesma sentença) eu vou conseguir ser mais feliz na vida e eu juro que aprendo! Mas me conta o efeito de cada uma, sacou? Por que é aí que mora o perigo! Mas é aí também que está a chave do sucesso em termos de comunicação: Em saber os efeitos que as construções semânticas causam na gente. Porque causam. E como causam.

O negócio é que essa pesquisa publicada pelo Brain/Mind Bulletin mostra que sujeitos em conversação livre, apresentam um tamanho de onda no EEG (eletroencefalograma) maior após o 'mas'. Por exemplo, na sentença:

Sujeito A: - Concorda?
Sujeito B: - Eu concordo, mas to achando melhor rever.

O sujeito A, apresenta um cumprimento de onda muito maior após o mas do que apresentava antes, isto é, ele está processando praticamente só a segunda parte da sentença! Neste caso, o "acho melhor rever"! A primeira -- concordo -- apagou-se da mente ou perdeu força, logo não adianta nada tentar amenizar com uma concordância primeiro. Dããã...

Coisas como:
- Você é um ótimo funcionário, mas...
- Você é um super amigo, mas...
- Eu te ajudo, mas...

Esquece! Esquece o ótimo, o super, o ajudo. Esquece tudo! Deu em nada!

Lembra que eu disse no início que eram duas cenas no mesmo episódio de Friends? Então, na segunda, a Rachel tá sentada na escada da entrada do apartamento, curtindo uma dor de cotovelo básica, quando vê o Joshua, voltando. Ele se aproxima dela e diz:
- Fiquei pensando muito sobre nós e, bem, ainda é verdade que estou recém saindo de um relacionamento e meio machucado, mas...
Ao que ela, imediatamente o interrompe e diz:
- Ah! Aí está! Desse 'mas' sim eu gosto!
Eles riem e, claro, dão um beijo daqueles de estimular cachoeiras de endorfina na corrente sanguínea.

É simples assim, basta inverter a ordem das coisas, por exemplo:
- Você tem se atrasado ultimamente, mas é um ótimo funcionário de modo geral. O que tá acontecendo?
- Você me deixou falando sozinho ontem, mas é um super amigo. Não entendi. O que aconteceu?
- Eu não tenho a parte da manhã, mas te ajudo à tarde ou à noite.

E por aí vai...

Eu, por exemplo, adoraria continuar escrevendo, mas preciso parar agora porque postar aquele video do beijo no YouTube mexeu com toda minha produção de neurotransmissores... (neurocientistas são maus... muito maus... mas podem ser bem instrutivos e divertidos também quando querem...)


Beijo sabor madrugada adentro
Inês Cozzo Olivares
SP, 19/10.2009

AQUI "moram" todas as crônicas que "já nasceram" e que adoram receber visitas...

Você ama alguém imperfeito?
Eu amo.

Eu amo muito uma pessoa imperfeita. Uma pessoa com vários, não apenas um, vários defeitos. Até porque, a perfeição seria um tédio! Mas pode ser também porque me vejo nessa pessoa mais vezes do que tenho consciência.

Eu já percebi que me vejo nessa pessoa que eu amo muito, sempre que faço algo pra me sentir feliz sem me dar conta do quanto poderei magoá-la; ou do quanto posso prejudicar essa pessoa ou alguma outra! Mas, tudo que eu queria quando fiz o que fiz, era me sentir feliz... Nunca imaginei que isso pudesse ferir alguém que eu amo. Como explicar isso depois do estrago feito? Como explicar que ninguém faz nada para o meu mal, apenas para o seu bem? Alguém que já tenha passado por isso, saberia me responder?

Eu também já notei que me vejo nessa pessoa que eu amo muito, todas as vezes (são mesmo muitas) que eu faço algo por ela sem perguntar antes à ela se ela desejava isso naquele momento. Sabem o que é mais louco? É que, algumas das vezes que faço o que depois descubro que não foi bem recebido, eu nem tinha tempo ou boas condições financeiras pra fazer, foi um esforço danado mas parecia que a intenção era tão boa que justificava... Vocês podem imaginar quanto me dói ver que a chateei ou irritei quando, além de ter a melhor intenção do mundo, ainda me prejudiquei um pouco -- ou muito?

Eu me vejo nessa pessoa que amo também quando ela faz algo de que discordo, eu a alerto para o perigo que corre e ela me ignora. Me parece que não se importa com a preocupação que tenho por ela... Me vejo nessa pessoa porque, meus pais fizeram muito isso comigo e eu os ignorei. Paguei o preço das consequências mas feliz por estar me sentindo livre para errar do meu jeito. Como é que diz mesmo a música? "Se chorei ou se sofri, o importante é que emoções eu vivi..." e cresci.

Não é fácil admitir que alguém não veja o mundo da mesma maneira que eu vejo. Afinal, minha forma de ver o mundo é tão melhor, mais precisa, mais verdadeira, mais saudável, mais próspera, mais... Ou não é...? É?

Eu sei como uma pessoa que amo muito poderia educar seus filhos, por exemplo. E eu nem tenho filhos! Mesmo que tivesse, não seriam AQUELES filhos. Mas é claro que eu sei. Sou uma pessoa "estudada". Eu sei e pronto! Ou será que não se aprende tudo na escola ou na faculdade? Será?

Eu sei como uma outra pessoa que amo e quero ver feliz deveria conduzir suas relações com o mundo. Por que, cargas d'água ela não faz do meu jeito? Por quê? Ela seria tão mais feliz! Eu sou. Não sou? Sou?

Mas estas são apenas algumas das coisas que eu já enxergo. Que fazer a respeito daquelas que eu não vejo? Que estão no meu ponto cego?

Eu sou tão diferente de todo mundo e, ainda assim, tão igual! Tem razão a ativista espiritual, autora, palestrante e fundadora da Peace Alliance, Marianne Williamson em seu best-seller  "A return to love" (Um retorno ao amor) quando diz que nós somos como os raios de uma roda, todos irradiando a partir do mesmo centro. Se você nos define de acordo com nossa posição na borda, ela diz, nós parecemos separados e distintos uns dos outros. Mas se você nos define de acordo com nosso ponto de partida, nossa fonte -- o centro da roda -- nós somos uma mesma identidade. Se você for buscar bem fundo em sua mente e bem fundo na minha, a imagem será a mesma: no âmago de tudo isso, o que somos é Amor.

Acho que só me sobra pedir desculpas e rezar para que elas sejam compreendidas e aceitas. Ou, quem sabe, eu possa prevenir quem eu amo sobre os riscos de que eu venha a fazer estas coisas. Ou, talvez eu apenas siga vivendo como todo mundo, só um pouco mais aberta a perceber que faço pra poder "disquerer" fazer... Mas também desconfio que vale a pena tentar ir mudando devagarinho essa mania de achar que minha verdade é mais verdadeira que as outras verdades.

O que é a verdade se, quando a analisamos, há sempre 3 situações "verdadeiras": a minha, a sua e a correta? Etimologicamente, a palavra verdade vem de aletea: o que não é esquecido, o que se mostra, o que não pode ser deixado pra trás e caminha conosco o tempo todo. O contrário de letos, aquilo que é esquecido. O problema é esse... O que existem são verdades relativas.

O garotinho chegou pro pai e disse choroso:
- Pai, eu não consigo dormir. Tem um monstro no meu quarto.
E o pai amorosamente:
- Filhinho, vai deitar. Monstros não existem.
E o garotinho de novo
- Eu não posso dormir. Tem um monstro no meu quarto e eu tô com medo.
E o pai, pacientemente
- Filho, monstro é coisa que não existe.
E o filho, do alto da sabedoria dos seus 5 anos de idade:
- Pra nós, existe.

Só os malucos acham que podem ser imperfeitos e, ainda assim, felizes, mas querem saber de uma coisa? George Bernard Shaw tava certo: "Precisamos de algumas pessoas malucas, vejam só para onde as pessoas normais nos levaram."


Beijos sabor dúvida cruel
Inês Cozzo Olivares
SP, 07/10/2009

Muda ou não muda?
Não acredito em treinamentos comportamentais. Pessoas são ou não são. Elas não mudam.

Calma! Não fui eu quem disse isso. Ainda não doida desse tanto. Psicóloga que acha que pau que nasce torto até a cinza é torta tem mais é que vender cachorro-quente em porta de estádio. Não, não fui eu. Eu ouvi isso esta manhã de um amigo chateado porque ouviu do Presidente da empresa para a qual ele empresta seus talentos -- justamente na área que treina e desenvolve pessoas. Wow! Chupa essa manga!

Mas, caramba, como é possível que alguém, que tenha chegado ao cargo máximo em uma multinacional, possa ter uma crença dessas? Como é possível que alguém, com qualquer idade, acredite que não mudou a vida toda? Será que ele pensa que ainda tem as mesmas idéias, crenças e maturidade, pra dizer o mínimo, de quando tinha 5 ou 15 ou 20 anos? Será possível que ele acredite que ainda tem as mesmas habilidades, competências e atitudes? Ou que pense que se fez 100% sozinho? Sem quaisquer influências? Ah, não posso crer. O "cara" acabou agora com a Educação. Tá certo que a "bichinha" tá mesmo meio capenga, mas não morreu ainda...

Ainda assim, uma coisa me "encafifa" medonhamente. Pra essa criatura afirmar assim categoricamente que não acredita em treinamento comportamental, alguma coisa aconteceu, concordam? Isso não vem do nada, assim, sem mais nem menos. Se instalou no "cafofo" da caixa craniana dele depois de alguma (ou muitas) experiências negativas ou infrutíferas. Só pode. Porque doido não chega a CEO, chega? Melhor deixar isso quieto por agora. Vou apostar na primeira hipótese, a de que o cidadão nunca, jamais, em tempo algum, em toda a sua existência, teve uma experiência, umazinha só, que tivesse sido transformadora ou produtiva com treinamentos, palestras, livros, seminários, cursos... Vou parar, senão, daqui a pouco volto pra segunda hipótese, aquela da doidice. Pra não dizer que, se ele atravessou a vida até esse ponto, sem aprender nada com nada nem ninguém, quem tem sérios problemas é ele!

Isso, porque ainda não comentei sobre a afirmação absurda de que pessoas não mudam. He-lo-ou! A gente muda a cada segundo! Só não tem consciente disso 24 horas por dia, senão pirava, certo? Eu, por exemplo, tenho mais com que me preocupar do que com o tamanho das minhas unhas (se não tiver uma festa arrrrra-sa-do-ra na sexta à noite), elas vão se ocupar de crescer sozinhas. De mais a mais, nem toda mudança afeta minha existência. A das unhas muito menos. Não nestes tempo em que, o que Deus não dá, a mulherada vai e compra, certo? Mas é muita mudança mesmo! Do ponto de vista da Neurociência, cada hora ou momento do dia, apresenta uma frequência de luz e uma temperatura e essas mudanças de luz e temperatura afetam profundamente nossa competência porque afetam nossos estados pela produção de diferentes hormônios e neurotransmissores. Não existe personne que, depois de almoçar não tenha que enfrentar um período pós-prandial e os Ciclos Circadianos. Comeu, vai sentir sono. É batata! Adeus competência! É só conhecer um tiquinho de Cronobiologia. Aliás, é só ser Humano pra saber disso porque todo humano SENTE isso, oras bolas. A ciência vai lá e só dá nomes pras coisas que a gente já sabe; já sente.

Ah! Isso me lembra. Não existe essa história de que as pessoas resistem à mudança. Peter Senge em suas cinco disciplinas, colocou excepcionalmente bem essa questão. Pessoas não resistem à mudança, ele disse, resistem a serem mudadas. Se, ao invés de perceber um aspecto de suas vidas em seus contextos, comportamentos, capacidades ou crenças, perceberem-nas em suas identidades, aí sim demonstrarão resistência. Por exemplo, algumas vezes eu pergunto pras pessoas onde elas trabalham e escuto:

- Eu sou da Xiririca da Serra S/A

Juro que tenho vontade de responder:

- Sei... Eu sou minha mesmo, prazer...

Que coisa de maluco! Eu sou da... seja lá onde for??? Eu heim! "Coididoido" (já repararam que eu tenho um fraco pelo jeitinho do interior de Minas? Pois é, eu tenho messssss...)! Não é a toa que quando tem que sair, a pobre criatura fica "sem chão". Ficou sem identidade, tem que ficar "sem chão" mesmo.

Ou então, eu pergunto -- fingindo que acho que aquela pessoa tá bem, tá saudável, que todos os parafusos tão nos lugares e tal... eu pergunto:

- E o que você faz lá?

E a criatura me responde:

- Eu sou gerente comercial.

Mas outra vez??? Ninguém é gerente, as pessoas gerenciam uma área, não são nem a área nem o cargo nem a função! Depois eu é que sou esquisita, vão vendo...

Eu sigo o papo, vamos ver no que é que vai dar... Aí pergunto:

- E como você gerencia a área? (veja que eu tô tentando colocar as coisas de volta nos seus lugares, olha a intenção que linda)

Aí a criaturinha me responde:

- Ah... eu sou centralizador mesmo! Acho que as pessoas trabalham melhor se forem dirigidas.

Eu já nem tô ouvindo mais os argumentos. Eu tô é seriamente preocupada com o fato de que, além de tudo que percebi antes, agora vejo que o camarada também colocou uma (dentre muitas) estratégias na identidade. Vamos mal... muito mal... Esse cidadão vai mesmo resistir à mudança. Vai resistir à mudança de empresa (se houver uma fusão, ele se mata; no mínimo fica doente), vai resistir à mudança de área, de cargo, de função e de forma de gerenciar. Qualquer consultor ou coach vai "ralar" pra obter mudanças com esse aí. Ah, vai. Primeiro ele vai ter que colocar tudo no lugar de novo pra depois propor alguma mudança. Já tô cansada só de pensar. Depois ainda dizem que vida de consultor é glamurosa. Sei...

Mas entendam, nem esse "serzinho" do meu exemplo, nem nenhum outro, tá resistindo à mudança em si, tá resistindo a ser mudado porque tá tudo na identidade dele. Como se eu tivesse perguntado "Quem é você", não onde, o quê nem como. Dá uma pena...

Sabem, Níveis Neurológicos são "coisinhas" delicadas de se "mexer" porque envolvem um bocado de conhecimento sobre como gente funciona. Neste caso, em particular, é importante você saber que, ao nível da identidade, corresponde o sistema endócrino e imunológico e que estes sistemas são responsáveis por nossas funções profundas de sustentação da vida. Ninguém "sai bagunçando" as funções profundas de sustentação da nossa vida assim, sem mais essa nem aquela, não senhor!

Seja como for, voltando à visão extremamente limitada deste presidente, eu lamento profundamente que ela esteja assim tão "adoentada",  e, como Virgínia Satir, diria ao meu amigo que ouviu isso e à todos e todas que, como nos dois, trabalham com Treinamento e Desenvolvimento: Façamos algo pra mudar esse estado de coisas -- urgentemente inclusive -- mas, enquanto isso, não devemos permitir que as percepções limitadas das outras pessoas nos definam. Aliás, eu pessoalmente, não permito que visão nenhuma defina quem eu sou. Nem definição eu tenho, lembram? Sou um ser em constante construção.

Beijos sabor jiló com novalgina hoje... (éca)

Inês Cozzo Olivares
SP, 07/10/2009

Errei! E agora?
Criei uma palestra com esse título para o "Encontro com Notáveis" em Manaus este ano. E a criei, num momento da minha vida em que um determinado "erro" que cometi na adolescência ficou teimando em me perseguir e cobrar uma solução quase 30 anos depois! Ele precisava se transformar de reticências em ponto final...

A palestra foi, pra mim, um movimento terapêutico. Que bom que descobri que funcionou igual pra muita, muita gente. Acho que gente tem mesmo essa mania de cometer "erros". Eu, por exemplo, tenho cometido alguns erros ultimamente. Por exemplo, errei numa informação que dei sobre o falecimento do Peninha e, graças à Jennifer, uma assinante do boletim, descobri que, felizmente, ele está vivo e passa muito bem, obrigado. Me desculpem.

Também tenho cometido alguns erros nos textos que escrevo. Ora de digitação, ora de atenção, ora de ortografia mesmo. Os erros propositais vão sempre entre "caspas". E, na verdade, os erros de digitação são erros de atenção. A atenção "dança" quando a emoção assume o comando da nave-mãe, nosso cérebro, vocês já perceberam isso também? Aliás, como só escrevo quando uma emoção tá pilotando, ainda cometerei muitos erros, então, fica aqui um pedido de desculpas antecipado e com validade indeterminada. Não expira, certo? "Tamos" combinados.

Pois é. Eu só me sento aqui pra escrever quando alguma emoção fica me exigindo mais atenção que a razão. E ela tem feito isso demais ultimamente. Preciso ter uma conversinha séria com ela, de dona pra recurso, porque ela anda pensando que manda em mim. Então, venho pra cá e cuspo pelos dedos o que tá "caraminholando" no meu "bestunto", como dizia a Emília do Monteiro Lobato, com quem fui, deliciosamente comparada na crônica passada pelo meu amigo e colega de profissão Rogério Carlino. Ele até melhorou o elogio, disse que eu sou mesmo uma enfant terrible! Amei isso!

Hoje, o que anda pelo meu "bestunto" exigindo atenção é justamente o bendito "erro". Os "erros" que cometemos na vida. Vou ter que colocar entre "caspas" porque eu não acredito nesse tipo de "erro". Não falo da ortografia. Claro que esse tipo de erro existe. Falo desses que acreditamos que, se tivéssemos feito de outra maneira, estaria "certo".

É duro lidar com uma coisa em que a gente não acredita mas o mundo insiste que sim. E ainda te cobra e te julga por ele. Por exemplo, na crônica passada, contei sobre uma experiência religiosa na qual me dei mal: O Santo Daime, porque EU fiz tudo "errado". "Errado" para a prática do Santo Daime, mas perfeito para meu processo de aprendizagem naquele momento e que compartilho em outra crônica.

Algumas pessoas me escreveram preocupadíssimas comigo -- com o que fiquei sinceramente agradecida -- e com o fato de eu haver me exposto numa experiência que muita gente pensa que envolve drogas, mas o Santo Daime não é ilícito, muito pelo contrário! Felizmente, a maioria compreendeu que meu foco alí nem era a experiência em si -- eu poderia ter usado qualquer outra -- Deus sabe que eu já fiz cada besteira astronômica! Mas, por favor, não contem pra minha mãe... Acontece que, eu queria que você se divertisse e aquela do chá me servia melhor à esse própósito. Em todo caso, meu foco alí era o fato de nada nos acontecer e sim de nós "acontecermos" para as coisas e, portanto, refletir sobre isso.

A propósito, Cris querida, relaxa, só queimaram alguns poucos neurônios que gostam de música brega, mas eu tenho muitos, fica tranquila. Vai dar pra dançar na festa do CBTD.

Mas vamos lá... pra criar a palestra, eu fiquei me perguntando de onde vem essa idéia esquisita de erro e onde foi parar toda e qualquer ação que prova que errar é humano. Sim, porque eu ouço o discurso, mas não vejo o curso, entendem o que digo? Só vejo a ação -- curso coerente com discurso -- quando o erro não incomoda o discursador; só o queixante, aquele que "errou" mesmo. Agora, quando o erro incomoda, não o que errou, mas outra pessoa, ai, ai, ai... Cadê mesmo o famoso "errar é humano"? Ficou confuso isso aqui? Desculpa. Quando fico um tantinho indignada, perco um tantinho de capacidade de me explicar bem... Mas, leia devagarinho, como quem come um doce gostoso. Quem sabe funciona...

Mas, quando me perguntei de onde vem essa história de "erro", me lembrei dos tempos de escola, do primário. Lembram-se como era o sistema de notas? A gente tirava uma nota baixa, tipo 2. Geralmente, porque estava muito apaixonada pelo rapazinho da carteira ao lado ou da outra classe. Sempre a bendita emoção assumindo o comando. Daí, fazia um esforço danado, estudava com professor particular e tudo. Perdia férias e feriados; o programa favorito de TV -- os meus eram A família Dó-Ré-Mi com o David Cassidy, a Feiticeira e a Jeannie é um Gênio -- tirava nota alta, tipo 10. Uau!

Só que, então, as duas eram somadas e divididas por 2 e, o resultado, no caso, 6, seria a média do bimestre. Isso, que eu saiba, não mudou. E eu me pergunto: "Se eu não sabia, estudei, agora sei e o que sei não vai mudar, porque eu não posso ficar com a nota máxima? Porque eu não vou com 10 no boletim? Pra ver o sorriso de satisfação dos meus pais?" O fato de eu ter aprendido não faz nenhuma diferença? O fato de eu ter me esforçado e estudado não importa? Eu errei na primeira e vou carregar esse erro comigo pro resto da vida? Sim, porque vocês sabem que nós levamos nosso histórico escolar pra cada nova etapa escolar! Vocês sabem disso, certo?

Ainda tem mais! Eu entrei na Metodista em 1982 e passei no primeiro vestibular que fiz, mas muita gente tão estudiosa quanto eu, precisou de 2 ou mais vestibulares até conseguir. Tem gente que "funciona"assim por "N" fatores, na hora da prova "dá um branco". Então, o histórico de uma vida de esforço e dedicação ao estudo adiantou de quê? Prevalecem mesmo são os "erros" cometidos naquela prova específica. Não uma vida de estudo.

Tem coisa pior, bem pior. Olha só, você entrega uma prova pra professora; chega na porta da classe, antes mesmo de sair, e lembra que faltou colocar uma coisinha de nada na questão número 3; volta e pede pra professora se pode completar uma coisa na resposta número 3 que você tinha esquecido, mas lembrou agora, o que a professora responde? Exatamente! "Não, não pode." 30 segundos depois seu saber não vale mais? Seu conhecimento expirou? Tinha prazo de validade? Errou, dançou?

Se vocês acham que isso acaba quando você pega o diploma, pense outra vez. A gente leva isso vida afora. Tanto na cobrança que fazemos conosco, como na que fazemos com os outros. A gente jura que tá avaliando, mas tá mesmo é examinando! Se for baseado nos princípios do exame, é exame, ora bolas, não é avaliação!

Então, o exame é PONTUAL; só interessa o que tá acontecendo aqui e agora. É SELETIVO; "Esse sim, esse não" e, se é seletivo, é excludente, como no vestibular! É CLASSIFICATÓRIO; aprova ou reprova como na média do bimestre. Não há um meio-termo. Ou se é bom ou não. Acho que o nome disso é maniqueísmo.

Você percebe nisso um mito em torno do erro? O exame desumaniza o erro -- como se não fosse humano errar! Eu ajo de maneira a conceber o ser humano como pronto e, ser pronto é diferente de ser em movimento, em construção, portanto, passível de cometer "erros". Como já disse Alguém que admiro: "atire a primeira pedra..."

Já ouviu falar que o cérebro humano aprende por ensaio, repetição e velocidade? Pois é. É assim que funciona aqui dentro da nossa cabeça. Quer ver uma coisa? Quer ver como a gente desumaniza o erro e "rouba" da gente e do outro o direito de "errar"? Quem nunca ouviu ou disse frases como:
   1. Pau que nasce torto...
   2. Filho de peixe...
   3. É de pequenino que se torce o pepino
Ai, ai...

Por tudo que se sabe em Neuropsicologia, o ser humano se desenvolve por dois princípios complementares. O primeiro é o Formativo que é o eixo de auto-desenvolvimento; quer dizer que cada um de nós busca autonomia. Esse princípio consiste em cada um se tornar autônomo e independente; só que não sozinho; na interação com o outro. Aí é que entra o segundo princípio, o Organizativo: Indivíduos com papéis diferentes vão nos organizar. Já ouviu falar em complementares? "Num" falha.

Mas então, nós "erramos", e "erramos" muito, nessa vida. Aí a gente fica cantando Epitáfio dos Titãs pra ver se, num processo catártico, elimina as culpas! Sinceramente, eu prefiro cantar "Rasura" do Oswaldo Montenegro do CD A lista - 2001. Tá aqui a letra pra você acompanhar cantando com a música (é só clicar no nome dela). Canta alto e, entanto canta, pensa em tudo que você tem remoído por achar que fez errado! Experimenta. É libertador!

Rasura
Oswaldo Montenegro

Me desculpe o mesmo gesto
Meu constante gesto insano
Que por mais que a mente negue
Teu coração ele marcou
Como a lógica dos fatos
Que eu traí a todo instante
Rasurando nosso branco
Com a mistura que eu sou

Me desculpe o gesto louco
A aspereza da loucura
Ainda queima no meu calmo,
Doido e calmo, coração
Mas por que, se a gente é tanto,
Nosso amor sofreu rasura?
Nosso inconfundível gesto
eu desfiz na minha mão

Me desculpe, ou melhor, não
Me abrace e comemora
Que a rasura que foi feita
Foi perfeita na sua hora
E mais que o mais perfeito
Rasurar valeu a pena

Como esteve rasurado
O primeiro original
Do mais lindo poema


Sobre minha experiência da adolescência? Não é mais reticências, mas também ainda não é ponto final... se transformou em vírgula... Na certa, ainda vai virar crônica...

Beijos sabor passarinho fora da gaiola (como será isso?)

Inês Cozzo Olivares
(me abraçando pra perdoar todos os meus "erros" até aqui e daqui pra frente...)
SP. 28/09/2009
Me acontece cada uma! Será?
Me acontece cada uma!

Recentemente eu resolvi experimentar o Daime. É, ele mesmo, o próprio: O Santo Daime. Sei lá o que foi que me deu. Nem pergunta. Se arrependimento matasse...

Eu sou mesmo uma pessoa tremendamente curiosa sobre a mente humana. Não fosse isso, não teria me metido a fazer Psicologia, me especializado em Neurociências, dado curso de Astrologia... Como já se vê, sou também uma pessoa sem preconceitos intelectuais -- ou de quaisquer espécies. Vou facilmente da Neuropsicoimunologia (bem que eu queria botar um link aqui, mas cadê que eu achei algum que prestasse...) à Astrologia e outras Ciências Arcanas, com uma facilidade inacreditável. Se estuda a mente e o comportamento humano, to nessa.

Imaginei que o chá me permitiria investigar algumas coisas na minha própria mente -- um labirinto com uma pequena população de Minotauros com direito até a Teseus e Ariadnes... ai que romântico... -- e  de uma forma super interessante. Imaginem entrar no universo do nosso inconsciente, estando consciente de tudo que tá acontecendo!  Eu me tornaria uma mistura de Sherlock Holmes com Freud. Tudo de bom!

Tudo de bom uma ova! Foi horrível! "Quasmurrí" como diria algum mineirim! Ainda bem que eu "se" conheço. Se eu já "viajo" à beça "cara limpa", calcule chapada! Então, pedi pra tomar só meia dose do negócio. Se com meia dose eu fiquei "trincada", imagina tomando as duas de praxe! Deus me livre!

No começo achei que eu era imune ao "troço". Não acontecia nada de diferente e eu já ficando impaciente. Mas era só minha impaciência típica mesmo. Não demorou muito o corpo começou a formigar. De um jeito que eu não tava gostando muito... "Mas vá lá, pensei, faz parte de toda experiência um desconfortozinho, certo?". Mas o desconforto foi mostrando que de "inho" ele não tinha nada e eu querendo cortar a sensação. Que jeito? Eu não conseguia nem mexer o dedo mindinho que dirá o resto do corpo, pra sair da cama. Sim senhoras e senhores, eu fui estúpida o bastante pra fazer a experiência na minha cama! No meu quarto! O serviço foi "delivery" e espontânea vontade! Toinhoinhóim! Então, o primeiro tempo foi só esse desconforto monstro! Uma droga, com o perdão do trocadilho besta.

Mas tenho que confessar, ali pelo segundo tempo do jogo, a coisa ficou muito linda. Tava tocando Roberto Carlos no aparelho de som. Eu tava ficando cada vez mais emocionada.  "Essa luuuuuuzzzz, é claro que é Jesuuuuus!" E eu emocionadaça! Sensação de enlevo, de fazer parte de algo maior. E o Robertão mandando uma baladona sentida! "Luz que me ilumina o caminho e que me ajuda a seguiiiiiirrrr!" Fui sentindo um Amor gigantesco por tudo e por todos! Cara que amorzão! Aí, era tanto Amor, que eu comecei a distribuir pra todo mundo: Amigo, inimigo, conhecido, desconhecido, vivo, morto. Tudo que é ser. Sobrou até pro Hitler onde quer que ele esteja! "Perdoai. Eles não sabem o que fazem", sacumé? Eu tava assim. Fiquei assim um tempão.

Quando acabou o segundo tempo, eu achava que já tava bom, que o camarada Xamã já podia me trazer de volta, que então tá... né?
...
...
...
Eeeee aí...?
...
...
...
Como assim não volta?!?! Chega! Acabou! Já deu!

E nada d'eu voltar. O corpo não obedecia. E o cara ainda queria me socar outra dose!!! Pirou o cabeção, maluco????? Nem morta! Aliás, eu achava que já tava mesmo morta, pra quê desperdiçar mais chá, certo? Mal sabia eu que essa brincadeira besta ia ter terceiro tempo, quarto tempo, prorrogação, ia pros penaltis... aí meu Deus, o que é que vem depois disso mesmo? Morte súbita! Créda! Bom, se eu to aqui escrevendo isso é porque, lá em cima, o Juíz tirou a sorte na moedinha e deu "Fica", certo?

Estávamos em 3. Ouvi uma voltando. Ouvi outra voltando. Consegui ver todo mundo de pé. Altos papos de "Uau! Que demais!" E euzinha lá. Doidona! Mas fingindo que tava nos saltos. Que nem quando eu bebo umas 7 ou 10 -- como se eu precisasse de mais que uma pra ficar prequeté -- e fico tentando fingir que não "bateu", entende? Que não "pegou". Então, conversei, pastoso pra burro, mas conversei. Respondi às perguntas que me fizeram sabe lá Deus como ou o quê foi que eu falei... Lembro nadica de nada! Mas to na pose.

Descemos pra sala. O Tuim, meu marido -- que espertamente não quis nem saber daquela doidice e não embarcou, me olhou esquisito, tipo "Hummm... eu conheço esse arzinho de 'Não tá acontecendo nada. Tá tudo na paz'..."

E senta todo mundo na sala pra conversar e eu quieta. Era um esforço medonho qualquer coisinha. Cada movimento que eu fazia, parecia que eu tava numa piscina de leite condensado... cozido!

Aííííííí... o mal-estar foi aumentando, aumentando, aumentando; eu não conseguia mais respirar, o coração parecia que tinha parado de bater -- aposto que tinha mesmo! Minha amiga olhou pra minha cara e disse: "Ela tá ficando pálida! Olha lá! Ela tá perdendo a cor!" O Tuim correu, pegou meu pulso, olhou o relógio e começou a medir a pulsação: Nada! O "bagulho" tava praticamente a zero! A pressão foi no calcanhar! Ele não conseguia achar o batimento cardíaco e ficou uma fera! Ele sempre fica uma fera quando eu apronto e ele fica com medo que algo me aconteça. Ainda deu tempo de pensar nisso antes de sentir que eu ia desmaiar. Mas eu não desmaiei. Ficava ouvindo tudo, mas não tinha um "pentelhésimo" de força pra fazer nada! Meu C.R.A. foi a milhão! A propósito, C.R.A. é Coeficiente de Retração Anal.

O "Xamã" delivery ria e dizia: - "Ela tá na Força... Deixa ela... Ela tá ótima!"

Ótima?!?!?!?! Te mostro o ótima quando eu sair dessa, se eu sair dessa porque a porcaria do efeito não passava nunca! Meia hora e nada; uma hora e nada, 2 horas e nada, 3, 4, 5 horas e nada! Me senti o próprio pardalzinho, sabe? Aquele que o gavião soca um "baseado" gigante na boca e pergunta: -"E aí pardalzinho? Tá sentindo?" e ele fica repetindo: -"Eu num to sentindo naaaada." e o gavião enfia no biquinho dele uma "bomba cada vez maior e o pardalzinho: -"Eu num to sentindo naaadaaa." naquela vozinha finiiiinha de pardalzinho... Pois é, eu tava igualzinha. Eu num tava sentindo naadaaa. Eu num tava sentindo meu biquinho, eu num tava sentindo minha patinha, eu num tava sentindo naaaada! Mais de 6 horas depois foi que eu comecei a sentir uns "téquinhos" do meu corpo de novo! O Tuim só xingava. Não eu. O "Xamã delivery boy". Eu ele ia xingar assim que eu sarasse... E sarei... Mas minha mente? Bem, desconfio que os Minotauros agora, estão todos soltos e dançando Hip-hop, ainda tá tudo meio doidão; a Ariadne perdeu o fio e não sabe voltar. Vai ter que se contentar com um dos Minotauros porque parece que o Teseu agora encontrou sua porção-mulher aqui dentro e virou gay!

Fora o fato de que a gente ainda teve que ir levar o Xamã pra casa dele láááá em Cumbica e o Tuim tinha que dirigir, ficar acordado e ainda me manter acordada por causa do medo de eu dormir e entrar em coma! Dizem que isso nunca acontece, mas sabemos lá... Eu não sou exatamente normal, entendem? Isso tudo foi alí pelas 5 horas da manhã! E o "babado' todo tinha começado às 9 da noite!

Depois descobri que não é assim que se "brinca" de Daime, mas aí já "Elvis". Não tenho um fiapo de vontade de repetir a experiência. Esquece! Me erra! Me extravia! Me inclua fora dessa! Fui!

Mas, sabem? Segundo Jung (desculpem a intimidade, mas fãs fazem assim mesmo e eu sou muito fã desse cara!), nada nos acontece. Nós é que acontecemos para as coisas. Ele diz que a gente é que entra na frente do caminhão e se atropela, a gente é que coloca a cara na exata direção do tapa que vem vindo e por aí vai. Ele chama à isso "Princípio da sincronicidade". Ele diz que, inconscientemente, escolhemos as experiências de que precisamos para nossas aprendizagens evolutivas. Então, por exemplo, nos colocamos na frente do caminhão que nos atropelará se tivermos que ficar no hospital, isolados e em silêncio meditativo porque nada mais haverá a fazer e, enfim, enfrentaremos nossos fantasmas e sombras. O que precisamos aprender (padrão) com isso é que deveria ser a questão principal de nosso foco de atenção. A vida terá nos apresentado umas cem maneiras de fazer isso -- enfrentar nossos fantasmas e sombras -- de formas mais suaves, antes do caminhão, ou, no meu caso, antes do "Xamã delivery". Se não conseguimos enxergar dessas formas mais suaves e precisamos do caminhão, paz-ciência...

Jung finaliza: "Se algo vai mal no mundo, algo vai mal com o indivíduo; algo vai mal COMIGO. Assim, se quero ver um mundo melhor, tenho que, primeiro ficar bem COMIGO... e o mundo ficará bem também.

Nesse caso, eu escolhi fazer a experiência, eu tive preguiça de pesquisar mais sobre o assunto, eu aceitei a primeira oportunidade que apareceu, eu elegi o camarada "delivery" que me colocaria em tal situação de desconforto (eita adjetivozinho mixuruca pro tamanho da encrenca em que me meti naquela noite), eu, eu, eu. Ninguém mais senão eu mesma. O que eu tenho que aprender com isso? Ainda não descobri, mas quando descobrir, certamente virará uma crônica. Torçam por mim!

Então, refazendo o início dessa crônica: Eu "aconteço" pra cada uma!

E você?

Beijos sabor cereja (adoro cerejas!)
Inês Cozzo Olivares
SP. 23/09/09
É Primavera!
Pelo menos aqui, do lado de baixo do Equador, hoje começa a Primavera.

A Primavera é a estação do ano que se segue ao Inverno e precede o Verão. Deve ser pra gente se lembrar que depois de um período saudável de reclusão, voltado para si mesmo em auto-análise; em auto-conhecimento; em auto-descoberta, é hora de sair pro mundo. Devagarinho ainda. Ainda não é tempo de mostrar todas as cores e exuberância num Sol intenso e marcante de Verão, mas é bom já ir tomando consciência de que isso acontecerá em breve.

Até 21 de dezembro, portanto, eu vou florescer, desabrochar. No meu caso, reflorescer. Ah! Eu gosto dessa idéia. Gosto muito!

Eu adoro metaforizar tudo. Gosto de "ler" o mundo como se todas as coisas estivessem me contando histórias. Ou melhor ainda, respondendo às minhas dúvidas e inquietações que, como a maioria das pessoas que me conhece sabem, são muitas. Por vezes, eu leio as coisas à minha volta como se fossem mestres me ensinando alguma lição.

Por exemplo, gosto de pensar que aprendi, com os quatro elementos da Natureza, coisas bem diferentes e todas muito úteis.

Eu aprendi com o Fogo a aquecer sem jamais permitir que me invadam. Também sei iluminar alguns caminhos por algum tempo. Sei fazer algumas alquimias, transformando certos elementos em outros, através da fusão. Às vezes, fundir-se dói. E, nem todo mundo é capaz de se desprender da forma em que está para mudar. É por isso que as vezes dói. Mas, quando a gente aprende a "ler" o resultado, essa aprendizagem sempre supera a dor. Comigo tem funcionado bem.

Já com a Terra eu aprendi a nutrir e acolher quem escolhe fincar suas raízes em mim, de uma forma ou de outra, e estremecer, tirando tudo do lugar, ou entrar em erupção quando algo dentro de mim precisa sair. Pra não implodir, entendem? E aprendi também que, de vez em quando é importante e preciso fazer alguns buracos (as minhocas fazem isso o tempo todo) se a gente quiser arejar... renovar o Ar...

Aprendi com o Ar, quando encontrar um obstáculo, acariciá-lo suavemente e continuar seguindo meu caminho, exatamente como a brisa faz com uma flor. Mas aprendi também com o Ar a estar sempre presente. Nada nesta vida acontece em outro tempo que não seja o Aqui e Agora. E, de qualquer forma, há um pensamento que me acompanha muito que é "Hoje é o amanhã com o qual você se preocupou ontem. Valeu a pena?". Nunca me valeu a pena. Pelo menos ainda não... Então, tenho tentado viver o presente. Não disse que consigo. Disse que tento...

Com a Água aprendi, e essa foi bem difícil pela minha natureza inquieta, a nunca discutir com os obstáculos, contorná-los; e me manter firme num propósito ou caminho que me pareça ideal. Ir penetrando devagarinho e continuamente. Até chegar onde é preciso. Afinal, como diz um provérbio persa "A paciência é uma árvore de raízes amargas, mas seus frutos são extremamente doces".

Quando sou Fogo, ilumino, transformo, queimo ou aqueço... depende do apreço...
Quando sou Terra, acolho, sustento, cuido ou alimento... depende do consentimento...
Quando sou Ar, arejo, respiro, inspiro ou suspiro... depende o quanto admiro...
Quando sou Água, afogo, inundo, envolvo ou invado... depende do caso...

E com as Primaveras? Com as Primaveras, como a Cecília Meireles, eu aprendi a me deixar cortar e voltar sempre inteira...

Beijos sabor renovação



Inês Cozzo Olivares
SP. Primavera, 22/09/09
Orgasmos, homens e mulheres
Vocês sabiam que o dia 31 de julho, dia seguinte ao do meu aniversário, é o Dia Mundial do Orgasmo? O negócio dura só alguns segundos -- menos em algumas poucas mulheres que chegam a quase 1 minuto -- que inveja. Percebeu que "num to" na lista, né? Pois é. Eu também já percebi...

Sabem o que significa a palavra em grego? Significa "ferver de ardor". Caramba!

Não sei o que me surpreende mais. Existir um dia mundial do orgasmo, eu saber disso ou ser justamente o dia seguinte ao do meu aniversário. Todo santo ano! E eu vou saber disso, agora, pelo resto da minha vida! Será que isso é bom ou é ruim? Será que meus pais sabiam disso quando... Ah! Deixa isso pra lá. Melhor... Quem é que tem estômago pra imaginar pai e mãe nessas condições? Eu não tenho. Respeito, mas dispenso. E, pensando bem, e daí que é o dia seguinte ao do meu aniversário? Tem gente em pior situação que eu. Tem gente que, afinal, nasceu no dia 31 de julho. Judieira... Que carga pra se carregar, heim? A mídia fica inventando essas coisas e a gente que se vire com o que elas fazem com a nossa imaginação. Não é justo. Eu, por exemplo, ano que vem, vou ficar querendo, no mínimo ir pra algum Universo paralelo à meia-noite do dia 30 para o dia 31. Pobre marido. Sim senhor... que carga pra se carregar...

Bem, o fato é que existe mesmo o tal dia. Tá na internet. Não que tudo que esteja na internet mereça crédito. Mas tá lá. 577.000 hits no Google. Pode olhar.

Eu sei que já passou; que é notícia velha e tal, mas meu susto é novinho em folha! Isso não te assusta? Não o meu susto. A existência desse dia, não te assusta? Quero dizer, pra quê a gente quer UM dia do Orgasmo? E depois, pensa bem, por acaso a gente vai fazer uma festa pra comemorar ou algo assim? Chamar os amigos, comprar uns comes... Que "mêda" das inevitáveis associações...

E pensar que eu só estava pesquisando sobre córtex, sistema nervoso autônomo e hipotálamo como uma neurocientista comportadinha... Hoje em dia ninguém sabe onde vai parar navegando por essa internet...

Bem, pelo menos, você nunca mais vai esquecer o dia do meu aniversário... Não que eu tenha tido essa intenção... Longe de mim...

Mas, essa história toda de orgasmo, me lembra, no filme de 1989, "Harry e Sally - Feitos um Para o Outro"  ("When Harry Met Sally"), a cena em que Meg Ryan explica, ou melhor, demonstra com riqueza de detalhes, como as mulheres são perfeitamente capazes de fingir um orgasmo. A cena é antológica. Eu a utilizo muito para explicar um conceito em PNL chamado "calibração do sensorial". Um "negócio" que, se todo mundo fizesse, reduziria muito os mal-entendidos. Utilizo pra falar algumas coisas específicas sobre técnicas de vendas também, mas isso é muuuito difícil de explicar aqui. Fica pra outra hora.

Nesse mesmo filme, há uma outra cena que eu acho muito importante, muito importante mesmo! É uma em que o Harry discute com a Sally sobre não ser possível uma amizade verdadeira entre um homem e uma mulher. O diálogo é exatamente assim:

- Harry: "Você se dá conta, é claro, de que nunca poderemos ser realmente amigos.
- Sally: "Porque não?
- Harry: "O que quero dizer é que... e não estou dando em cima de você... homens e mulheres não podem ser amigos porque tem sempre sexo envolvido.
- Sally: "Isso não é verdade. Eu tenho um monte de amigos sem sexo nenhum envolvido!
- Harry: "Não, não tem."
- Sally: "Sim eu tenho!"
- Harry: "Não, não tem."
- Sally: "Tenho sim!"
- Harry: "Você só pensa que tem."

ISSO SIM assusta! Pára e pensa. Só pensa, nas implicações disso. É claro que ela não está "transando" com os amigos sem saber! O que ele quer dizer é que todos esses amigos aos quais ela se refere, imaginam essa possibilidade. Desejam essa possibilidade. Ah! Mas calma, "meninas" porque o personagem alega que isso só acontece se seu amigo a achar atraente. Depois, Harry pensa um pouco -- bem pouco aliás, e diz:

-"Nãããã... Eles querem transar com você de qualquer jeito.

E aí???? Dããããã. Que neura!

Pelo menos, o Giovanni é bem honesto sobre isso. Alguém ainda lembra do italiano? Pois é, ele não é Eucatex, mas como diria o Maguila "É muntcho registentche! Enfim, quando eu disse à ele que achava que, se ele fingisse que eu era homem eu me sentiria melhor porque assim não haveria riscos dele pensar que, ao me corresponder com ele, eu estaria alimentando alguma esperança de romance, sabem o que ele me respondeu?

Noooooooooooooooooooooooooooooooo !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Preferisco pensare allora di essere un CONIGLIO, dolce Ines !!!!!!!


É.
Copiado e colado, tal e qual!
Disse que prefere, então, pensar que sou um coelho!
Claro que eu ri.
E muito!
Aliás, se você não riu, lamento informar mas você está num estresse lascado!

Na sequência, ele escreve o nome dele completinho, o endereço completinho (com CEP e tudo!) e o telefone celular. A seguir escreve:

Amo, rido, canto, piago, soffro, ricordo, sogno, ... e ti stimo per come ti percepisco e per le cose che scrivi.
Bom, eu respondo, eu também amo (muito!), rio (demais), canto (mas isso ele já sabe e fica pra outra história), praguejo (e em italiano, inclusive, na maioria das vezes), sofro (mas aí eu canto), recordo (ultimamente mais do que nunca), sonho e também já gosto um tantinho dele... por como o percebo e pelas coisas que ele escreve. Quanta coincidência!

Aí ele me diz, como que pra me acalmar:

Però sei lontana e questo può tranquillizate TUTTI, TUTTI, TUTTI !!!
"Mas você está longe e isto pode te tranquilizar, acalmar tudo, tudo, tudo!" Que ingênuo! Que besteira! Há menos de um mês eu estava em Portugal, portanto, mais perto dele que do meu marido! Mas eu não sou doida de contar isso à ele. Hã hã.

Por fim, ele arremata:
Evviva, allora sono ancora un uomo, maschio, italiano  !!!
Que, em bom português quer dizer: - Urra! então eu ainda sou um Homem, macho, italiano !!! Como se eu tivesse alguma dúvida disso! Eu heim?

Então, ele fez o impensável. Eu falo que esses italianos são perigosos... Disse que, mais tarde, me escreveria um e-mail "um pouco longo", explicando porque não iria se comunicar comigo como seu eu fosse um homem. O pior é que eu fiquei mesmo esperando o tal e-mail "um pouco longo"! Aí fiquei preocupada. Eu nem deveria estar curiosa, pra início de conversa, certo? Mas estava.

Pra sorte dos curiosos como eu, o cerne desta questão é justamente o e-mail "um pouco longo" que o Giovanni me mandou. Em resumo ele disse que se eu fosse um homem, ele teria que falar comigo sobre futebol, a equipe do Brasil e do último gol que o Kaka fez! Um exemplo maravilhoso de balística... embora ele estivesse muito mais interessado no público dentro do estádio que nos 22 homens de cueca correndo atrás de uma bola. Juro, ele disse "de cueca"!

Se eu fosse um homem, ele disse, teria que falar da belíssima partida de xadrez que jogou o Fisher que abriu com um "Gambetto di donna" (alguém me conta o que é isso, por favor?) e se tornou campeão do mundo... embora ele não tenha um pingo de vontade de jogar uma partida de xadrez porque é cansativa e competitiva (ele pratica a cooperação! Até utiliza "O dilema do prisioneiro" pra falar de competição e cooperação nas aulas, exatamente como eu!) e, depois, disse ele, é só um jogo...

Pra falar comigo como se eu fosse homem, ele disse, ele teria que falar comigo sobre as mulheres e sobre a última noite de sexo inesquecível que teve com alguma mulher alegre e jovial, barulhenta e liberada e dos orgasmos que ela teve (haveria nesse plural uma pontinha de auto-propaganda? Nããããã... Deve ser minha imaginação...)... embora ele prefira "fazer" sexo a "falar" do sexo que fez.

Se eu fosse homem, ele disse, estaria falando comigo sobre política, sobre o seu desastroso primeiro-ministro Silvio Berlusconi e Lula e o fato de que provavelmente eles serão sucedidos por uma uma mulher e que, as três mulheres que podem suceder o Lula são três mulheres extraordinárias. Juro que ele escreveu isso! Nem perguntem o que achei. Eu tava pasma demais pra pensar nesse assunto especificamente.

O e-mail quase termina com ele dizendo que prefere que eu seja uma mulher. Assim, pode falar comigo sobre Arte, Música, Pintura (ele me pediu que analisasse um quadro de um pintor chamado Alexander Roslin), Fotografia, Filosofia e também História (ele agora está lendo "A história do cerco de Lisboa" do José Saramago) e tantos outros exercícios intelectuais. Ele disse que, assim, eu fico contente e me divirto em testes de Psicologia aplicada.

Claro que, então, virão à tona apenas os componentes femininos que existem dentro dele, mas que, ao menos assim, ele será mais neutro e menos perigoso. Não são minhas estas palavras. São dele!

Eu respondi que não, definitivamente eu não queria falar sobre:

- Futebol -- senão pelas ocorrências episódicas e interessantes de um ou outro jogo como o caso deste Fair play maravilhoso pra falar de ética!
- Política -- eventualmente e desde que seja para fazer alguma diferença porque, como diz o Oswaldo (Montenegro) na música "O mesmo assunto": "De que adianta a luta na mesa de um bar?"
- Sexo -- Seguramente fazer é muito melhor que falar... a não ser quando falamos com quem fazemos...
- Nem sobre xadrez ou outro jogo qualquer que não sejam os jogos sociais e humanos! Por estes, me interesso sobremaneira...

Decididamente!

Agora, por favor, acompanhem meu raciocínio. Eu disse à ele, "Por outro lado, você É HOMEM e fala de Arte, Pintura, Poesia, Música, Fotografia e História...", então porque não pode falar sobre isso com outro Homem? Faz sentido pra vocês? Porque pra mim faz, e muito!

Digo que o e-mail "quase" termina assim porque, aí, ele me dá o golpe de misericórdia:

"PERCHE’ HAI COSI' TANTA PAURA DI TE STESSA??? UNA DONNA BELISSIMA E SENSUALE!"
"Mas porque você tem tanto medo de ser você mesma??? Uma mulher belíssima e sensual!

Como diz minha amiga Claudia: "Me amarrota que eu to passada!".

Não é que eu conheço um monte de mulheres que realmente escondem sua feminilidade em posturas, comportamentos e até em corpos quase masculinizados por medo? Eu mesma fiz isso durante anos!

Esse carcamano mentiu. Ele não se formou em Engenharia. Ele fez foi Psicologia e tá escondendo o ouro...

O.K. Eu admito. Esse cara não é perigoso, é perigosíssimo!

Ainda bem que quem eu amo é mais! Rá!

Inês Cozzo Olivares
SP, 19/09/09
Porque, cargas d'água, eu não "soltei" uma crônica dia 09/09/09?
Porcaria!

Uma homenagem e um pedido de desculpas intercontinental
Esta crônica (?) tem endereço. Ela vai para a Europa.

Tenho recebido verdadeiras avalanches de mensagens elogiando meus textos. Eu queria muito chamá-los de crônicas, sem aquela interrogaçãozinha alí do começo, porque eu adoro crônicas, mas acho que eles são, no máximo, filhotinhos de crônicas. Ahhhh quando forem adultas...

Mas sim, eu ia dizendo que centenas de pessoas têm me agradecido muito pelo processo quase terapêutico que os textos têm propiciado e me incentivam a continuar. Me pedem temas específicos (que honra!) e que eu publique um livro (Uau!)

Sabem o que é? É que isso não é uma coisa que eu escolho fazer. É uma coisa que faço porque PRECISO fazer, quando preciso fazer. Como agora. Porque se não tiro da minha cabeça a tal ou tais inquietações, elas ficam me atrapalhando pra fazer outras coisas que também precisam ser feitas. Você tem uma coisa assim também? Bem, se tem, sabe como é. Não preciso explicar. Se não tem, nem adianta explicar. Então vamos ao que realmente me colocou aqui pra escrever agora.

Eu estou relendo o livro "O poder da mensagem", do qual, inclusive já falei, escrito por Hélio Ribeiro que tinha um programa de mesmo nome na rádio Bandeirantes AM nos anos 70. Eu o ouvia todos os dias com minhas tias Ana Maria e Cecília.

Eu já disse que minha família é feita de professores? Pois é. Ah! Não que eles sejam formados em Pedagogia, não, não. Não é isso. É que todos os meus tios e tias nos educaram de alguma forma. Sempre que me perguntam onde eu comecei minha formação profissional para fazer coisas tão originais e diferentes de todo mundo, respondo a verdade mais óbvia pra mim. Comecei na minha família. Escrevendo, juntamente com meu Tio João Paulo, um ano mais novo que eu, o jornalzinho da família, "bolando" esquetes engraçadas e brincadeiras saudáveis para as festas de Natal. Nós éramos muito incentivados pelos mais velhos.

Hélio Ribeiro diz que há uma fórmula para melhorar o mundo: ao invés do moço agredir o velho, é preciso que os dois se unam para cuidar das crianças. Minha família faz isso. Até hoje nos reunimos todos e todas para celebrar o Natal. Somos quase 100 pessoas já. Acreditam que temos até nosso próprio grupo no Yahoo? Agora a família tem diplomados pra valer aos montes -- quando eu era criança só tínhamos um: o Tio Din-Don -- e usa a tecnologia pra se manter sempre e cada vez mais unida. Eu já disse que a tecnologia, quando tem por trás dela um espírito vivo, é maravilhosa, certo? Acho também que já disse que tenho um orgulho danado da família que tenho. Todo mundo podia fazer o mesmo nas suas famílias. Eu acho...

É por tudo isso que é tão difícil pra mim ver famílias desmoronando. Fico "doente" com isso. Será que as pessoas não vêm que é assim que sociedades inteiras começam a desmoronar? Que histórias ainda cheias de possibilidades, acabam interrompidas? Que, um dia, o que quer que tenha feito desmoronar, perderá a importância diante da imensidão do tempo e da vastidão do espaço, como dizia Carl Sagan? Ai, ai...

Mas como eu dizia, está sendo uma experiência impressionante reler esse livro. Eu o li pela primeira vez aos 11 ou 12 anos de idade, não me lembro mais mas lembro que foi na adolescência; "período que, antigamente, ficava entre a infância e a idade adulta" aproveitando a definição do Hélio Ribeiro. E eu sabia que ele tinha me marcado, mas nem desconfiava do quanto até relê-lo agora. Passados 36 anos, mais ou menos, descubro que me lembro de cada palavra, de cada vírgula, de cada ponto de exclamação. Acho que destes principalmente. Claro que nem concordo mais com 100% do que está escrito ali, mas não é esse o ponto. O ponto é quem não gostaria de se saber tão marcante?

Logo na página 16, ele diz:

"O Einstein só conseguiu ser o mais importante físico do mundo porque um humilde professor lhe ensinou a contar até dez..."

Daí eu pensei comigo mesma: "Uma das razões porque eu consigo escrever e falar da forma como faço é porque, um dia, um livro me impressionou tanto que foi capaz de me fazer esquecer quem eu era, onde estava e o que fazia. Um outro livro me fez, pelo menos, pensar que alguma coisa tola em que eu acreditava merecia uma interrogação. Daí veio um outro livro que me convenceu mesmo a abandonar aquela velha crença. Os livros me conduziram à pessoas que pensavam. E, vocês sabem, pensar é muito diferente de simplesmente "ter pensamentos". É uma coisa articulada.

O mesmo Hélio Ribeiro diz: "Adianta muito pouco fazer com que as pessoas aprendam a ler, se, depois, o que dão para elas lerem vai torná-las piores do que eram antes de aprenderem a ler..."

Vou contar à vocês que, recentemente, me meti num conflito familiar -- d'uma família que não é a minha -- danado de difícil. Por isso tenho pensado tanto sobre conflitos e precisava expulsar isso da minha cabeça pra poder fazer outras coisas.

Quando estou em conflito comigo mesma, como por estes dias em que me meti neste conflito, eu ouço música. Particularmente estas aqui.

Eu venho de uma família que discute, claro que discute. Há conflitos e confrontos. Como em qualquer outro grupo social. Mas há prioridades. O Amor e o Respeito vêm primeiro. Por mais acirrados que sejam os conflitos, alguém sempre contemporiza. Geralmente, minha mãe: Dona Maria "panos quentes" -- a mais velha das mulheres (são nove irmãos e irmãs). Ela definitivamente deveria ser diplomata. Sorte nossa.

Foi numa aula de Aikidô que aprendi um conceito importante sobre convivência pacífica:

1o. passo: Convide: Quer falar sobre isso? Quer minha ajuda? Conta comigo!
2o. passo: Partilhe: Baseado nestes fatos, eu acho que a melhor escolha, nesse momento, é essa. E você? O que acha? (Isso, se o convite for aceito)
3o. passo: Dê direção: Minha sugestão sobre isso é que...
4o. passo: Deixe ir: ... e torça pelo melhor resultado... porque não haverá mais nada a fazer...

Foi com a Lia Diskin que formalizei um conceito importante sobre não haver problemas em falar sobre qualquer coisa. A questão está na escolha da forma: Será através de diálogo ou de debate/discussão.

Veja as difereças:
DIÁLOGO................................................DEBATE
Visa Abrir questões....................................Visa fechar questões
Visa mostrar..............................................Visa convencer
Visa estabelecer relações...........................Visa demarcar posições
Visa compartilhar idéias.............................Visa persuadir/ensinar
Visa perguntar e aprender/compreender......Visa explicar
Vê a interação parte-todo...........................Vê partes em separado
Busca pluralidade.......................................Busca acordos
Fonte: Humberto Mariotti: Diálogo: Um método de reflexão conjunta - Revista Thot 78

Não. Eu não consegui resolver meu conflito com aquela família. Nem consegui ajudá-los em seu conflito. Pelo menos, até agora... Meu convite não foi aceito e as portas parecem estar fechadas. É duro isso quando a gente ama... Mas estou no 4º passo: Deixe ir... A diferença, é que, no Aikidô a gente deixa ir sem dor, sem chorar. Na vida, não. Mas estou deixando ir... mesmo chorando... Em todo caso, a parte mais importante, pra mim, desta família, está lendo isto exatamente agora, portanto saberá que choro... e que amo...

Pra finalizar este texto, quero dizer que a formalização da aprendizagem sobre como lidar com conflitos é do Hélio Ribeiro, da Lia Diskin, do Aikidô, do Humberto Mariotti e, sabe Deus, de quantos filósofos e pensadores eu já li ou ouvi nesta minha vida. Mas a gravação disso na minha neurologia, nas minhas células, foi feita na convivência diária com minha família. Porque meu corpo já conhecia a prática, a teoria encontrou um caminho neurológico a seguir.

Então, isto aqui é uma confissão de fracasso, um lamento. Não é possível ajudar sempre, nem à todos. É também um pedido de desculpas. Não posso escrever "por encomenda". Sinto muito. =(

Mas é, também e muito mais, uma homenagem à Hélio Ribeiro (e à todos que me ajudaram e ajudam a ver o mundo), juntamente com um agradecimento por ter sido o primeiro a iniciar-me no mundo das idéias críticas e contestadoras, mas com muita amorosidade. E é, também, uma homenagem à minha família -- fonte primeira de absolutamente tudo que sou e faço e penso e sinto -- e um agradecimento por terem SEMPRE me dado a melhor formação possível, formal, informal, e, principalmente, afetiva de forma crítica, mas também com muito, muito Amor.

Família de doidos, amo vocês!
Obrigada

Esta aqui, sou eu, Inês Cozzo Olivares
(com muito orgulho, gracias!)
SP, 13/09/2009
...
Esta não é uma crônica comum. Não senhor; não senhora.

Já começa pelo nome que é esse mesmo. Você não se enganou. Ela se chama "..."

É que, não é o que eu escrevo e você lê com os olhos físicos que realmente importa. Não, não. Vai valer o que você for capaz de ler nas entrelinhas... Com outros olhos...

É um texto que pretende ser um beijo. O beijo mais terno, profundo e doce que já foi dado algum dia. Mesmo nos "Era uma vez..." e "Viveram felizes para sempre." Mais, muito mais. Esse texto pretende ser um beijo nos lábios da Alma. Aposto que ela tem...

Por isso, preciso te pedir um enorme favor agora. Pare de ler e, se você não recebeu a música que anexei, ouça AQUI a música que precisa estar tocando enquanto você lê. E repita a música até terminar de ler, está bem? Por favor, apenas faça isso, ok? Assim, você entenderá melhor o que quero dizer hoje.

Agora já posso continuar.

É um não sei quê que vem sei muito bem de onde e que pretende mostrar que a tecnologia não é, nem nunca será, desprovida de Alma, se houver, por trás dela, um espírito vivo e apaixonado operando.

E, porque quando a gente tá explodindo, tem que colocar isso pra fora de alguma forma, senão explode mesmo, mas pode ser uma explosão "do mal" se não for do jeito mais apropriado, entendem? Então, peço permissão à vocês pra ser assim, pelos dedos e através da tecnologia.

Se você ainda não sabe porque suas idéias não estão alcançando as pessoas, pergunte-se quanto disso você está colocando no que faz.

Ah, é verdade, eu sou uma mulher muito, muito apaixonada e, claro, o italiano -- que coisa -- tem me provido dos melhores recursos, mas repito, todos os meios são instrumentos sem corte se não possuírem, atrás de si, um espírito vivo.

Você conseguiu responder o que traz o melhor de você? O que te faz se sentir vivo; viva?

Se ainda não conseguiu, ouça mais música, veja mais filmes, dance mais, namore mais, se apaixone mais. Enfim, descubra o que te deixa feliz. E, só depois, trabalhe. Ou durante... Se tiver a sorte de viver como eu...

Se já conseguiu, bem-vindo e bem-vinda ao clube. Aqui só tem gente boa.

Só mais uma coisa antes de te deixar sossegado, sossegada com essa música, hum..., superhiperesplendivilhosa?

É uma coisa sobre máquinas e seres vivos. Sobre materialismo e espiritualidade. Afinal, estou falando de possuir um espírito vivo por trás da tecnologia...

Pois bem, vocês estão vendo meu texto-beijo, certo? Sinto muito decepcioná-los, mas não, não estão. Vocês vêm apenas a luz refletida nele. Se dermos um blackout absoluto, ausência total de luz, no espaço em que você se encontra, adeus texto-beijo... A matéria é invisível.

Vocês sabem, claro, que toda matéria é feita de átomos, ou quarks, se preferir ir à fundo nisso. O quark é a única, dentre as partículas, que interage através de todas as quatro forças fundamentais. Não é lindo isso? Oh, bem só será se você for apaixonado, apaixonada pela quântica como eu... Enfim, tudo se compõe do mesmo elemento no Universo.

Isto posto, fiquemos nos átomos que são mais famosos e queridos. Você ainda se lembra que átomos são compostos de elétrons, prótons e neutrons? Pois bem, o que acontece quando eu aproximo um elétron de outro é que eles se repelem -- pensem em imãs -- porque têm mesma carga. Só aqui eu já ficaria um dia inteiro fazendo analogias entre humanos e seus relacionamentos, mas sigamos em frente. Se esses elétrons se tocassem, seria uma fusão atômica. Cada abraço, uma explosão. Bem, alguns são... Eu sei...

Mas, então, você não está, realmente, sentindo seu corpo na cadeira, porque ele também é feito de elétrons na superfície. Você está sentindo a força de repulsão eletrostática. Isso parece frio, não? Imaginar que, quando beija, você não toca, de fato, aqueles lábios que ama e deseja tanto? Mas, não é. Você nunca toca realmente em nada que seja "físico". Mas sente, não sente? Isso não leva seu pensamento pra muito, muito longe? O meu vai.... Pra muito, muito longe mesmo... Enfim, eu, por exemplo, não estou sentada escrevendo. Estou flutuando sobre uma camada de elétrons, tocando em nada, senão Almas. A matéria é intangível.

Se a matéria é invisível e intangível, então o materialista acredita naquilo que ele não toca e naquilo que ele não vê. É preciso ter muita fé pra se tornar um materialista... Pense nisso da próxima vez que desejar "vender" a idéia de um trabalho espiritualizado, vivencial. Da próxima vez que julgar um palestrante motivacional... Como a Leila Navarro, por exemplo. Uma amiga querida, culta e inteligentíssima. Profundamente apaixonada.

O que quero dizer é isso, você precisa tocar Almas se quiser fazer alguma diferença no mundo. E, também se quiser mostrar algo à alguém.

Esse texto-beijo, por exemplo, tem dono... Claro...

Mas eu pretendo que ele seja também um presente à você e algumas de suas inquietudes e desassossegos.

Além disso, se estiverem ouvindo a música que mandei, enquanto lêem a tradução dela a seguir,  saberão o que eu estava cantando em minha cabeça quando me deitei para dormir na noite passada...

Se você já não o fez, coloque a música novamente, acompanhe a tradução e veja quem ocupa seu pensamento enquanto lê e sente. Aposto que você saberá  o nome e o sobrenome do que tira o que de melhor existe em você...

Eu descobri...

Cinema Paradiso (Se)
Josh Groban

Se tu fossi nei miei occhi per un giorno
Se você visse através dos meus olhos por um dia

Vedresti la bellezza che piena d'allegria
Veria a beleza que me inunda de alegria

io trovo dentro gli occhi tuoi
Quando olho dentro dos teus olhos

ignaro se magia o realtà
Não sei se é magia ou realidade


Se tu fossi nel mio cuore per un giorno
se você estivesse no meu coração por um dia

Potreste avere un'idea
Poderia ter uma idéia

Di ciò che sento io
Do que eu sinto

Quando m'abbracci forte a te
Quando me abraça forte junto a você

E petto a petto noi
E, peito a peito, nós

Respiriamo insieme
Respiramos juntos


Protagonista del tuo amor
Protagonista do teu amor

Non so se sia magia o realtà
Não sei se é magia ou realidade


Se tu fossi nella mia anima un giorno
Se você estivesse na minha alma um dia

Sapresti cosa sento in me
Saberia o que eu sinto em mim

Che m'innamorai
que me apaixonou

Da quell'istante insieme a te
A partir desse instante, junto a você,

E ciò che provo è
em que o que experimento é

Solamente amore
Somente amor


Da quell'istante insieme a te
A partir desse instante, junto a você,

E ciò che provo è
em que o que experimento é

Solamente amore
Somente amor



Inês Cozzo Olivares
SP, 06/09/09
(como eu comecei quando estava quase dormindo, não sei precisar a hora... mas, o que importa...?
Um pedido, por favor
Tô precisando de ajuda. Ando às voltas com um problemão. O italiano bonitão: O Giovanni. Não ele, mas por causa dele. Eu disse à ele que chegava já de galanteios. Que eu já estava elogiada pelo resto desta minha "encadernação" e que já estava bom, eu disse. Agora vamos ser amigos e falar de música e livros e filmes e flores e o mar e trabalho, eu disse. Sabem o que ele fez? Ele me mandou Neruda, acreditam? Neruda...

"Leve o meu pão, se quiser, tome meu ar, mas não me tire o seu sorriso."

E, como se isso não bastasse, com a cena final e a música que é o tema de amor do filme Cinema Paradiso do Ennio Morricone!

Fala sério, quando a gente pensa que esses italianos já fizeram tudo que sabiam na arte de cortejar, eles vêem e se superam!

Aí ele escreveu que estava lendo um livro. Um livro maravilhoso. Disse que é um livro tão maravilhoso que ele está lendo apenas 3 páginas por dia que é pra não acabar muito rapidamente, "assim como se faz com uma torta de maça que amamos muito", ele disse; como ele fazia com o pudim que a mãe dele preparava e ele amava tanto, ele disse.

Você suspirou? Se você suspirou, provavelmente você é do sexo feminino ou é homem mesmo e tá com sua anima mais que bem resolvida. Eu suspirei. Esse camarada nunca vai sofrer de ejaculação precoce. Sorte de alguma moça com o coração disponível. Não é o meu caso. O meu tá ocupado há mais de 20 anos...

Bom, como eu disse, meu problemão não é exatamente com o italiano. Eu sei muito bem controlar essas coisas de cantadas, mesmo as italianas. Meu problemão é com o que isso me fez pensar...

Vocês vejam só como são as coisas, eu já estava acostumada à morte do romantismo no nosso século. Acostumada não, conformada. É diferente. Mas já estava até começando a achar a "ficadinha básica" um troço normal. Já começava a acreditar que o movimento fast tinha saído do food e invadido as relações e que isso era inevitável. Afinal, ele já está nos eletro-eletrônicos, nos empregos, nas músicas, até nos livros ele já chegou! Fast books. Leia agora, porque amanhã pode não servir mais!

Mário Sérgio Cortella me impactou profundamente quando desenvolveu uma reflexão no CBTD sobre a diferença entre o NOVO e a NOVIDADE.

Novidade é o que vem e vai embora rapidamente. Novidade é o que passa e não deixa nem vestígios. Não cria raízes, não deixa lembranças. Aquilo que chamaremos depois de "modismo".

Novo é o que se renova. É aquilo que revoluciona mas é perene.

Eu, Inês Cozzo Olivares, em 2009, sou a minha mais nova versão de mim mesma. Como o Cortella. Totalmente reinventada. Revista e ampliada. Um pouco mais ampliada que revista, mas convenhamos... quem, depois dos 40 não sofre uma certa expansão territorial, não é mesmo? Por favor, riam. Gosto de me imaginar engraçada porque engraçado é aquele que enche o mundo de graça e eu acho isso lindo! Como disse o Cortella. Eu realmente admiro este filósofo!

Agora, continuando com meu problemão. Eu não tive filhos. Não terei o prazer de educá-los para a vida. Não terei a honra de orientá-los na direção de melhores formas de ser e estar, como é minha missão estabelecida por mim mesma, obrigada. Não poderei dizer à eles, inspirada no filósofo Kant "Se não puder contar como fez, não faça." como disse o Cortella aos filhos dele. Mas, eu gostaria também de dizer à eles, se seu coração estiver implorando, "manda bala" que eu tô aqui pra te apoiar! Como o Cortella parece que não disse aos filhos dele. Isso meio que me entristece. Não o Cortella não ter dito. Eu não ter filhos aos quais dizer...

Mas posso contar à você e você pode contar à eles. Entendeu agora o meu problema e como você pode me ajudar? Talvez você já os tenha, talvez ainda vá tê-los. Que oportunidade! Por favor, conte à eles...

Ah... Antes que eu me esqueça, o livro que o Giovanni está lendo é do Kader Abdolah e se chama "Scrittura cuneiforme", bem, pelo menos é assim que ele se chama em italiano. Nem se assanha. Não tem no Brasil. É claro que eu fui atrás. E pela resenha, fiquei mesmo babando pra ler. Quem sabe ele me manda de lá...   :(


Inês Cozzo Olivares
SP, 03/09/09
iniciada à 01h50 e concluída (mesmo) às 02h11
tem coisas que são assim mesmo... Vapt, vupt
Era uma vez...
"Era uma vez..." que modo mais encantador de se começar uma história. Nem conta quando aconteceu. A gente tem que ler pra descobrir. Ou imaginar... O que é melhor ainda! Adoro imaginar...

Todo mundo tem uma porção de "era uma vez...". Todo mundo. Sem exceção. Eu me pergunto se todo mundo percebe isso. E, se percebe, será que dá o devido valor?

Me pergunto essa coisas, por acreditar que somos pessoas feitas de histórias. O Homem é um animal histórico. O único, até onde se sabe, que sabe de onde vem (crianças sempre querem saber sobre isso, já notaram?), onde está e pra onde vai, isto é, o único, até onde se sabe, que sabe que vai "morrer" um dia.

E o Homem é um animal que não gosta muito da idéia de morrer. Acho que é porque a maioria acredita que vai deixar de existir. E como animais históricos que somos, a maioria de nós não gosta da idéia de deixar de existir. Pelo menos, não sem fazer alguma diferença pra alguém.

Nem vou me meter em questões últimas. Alguns acham que morre, outros que acaba, transcende, volta, fica por lá mesmo... Nunca valeu a pena pra mim, me meter nesse tipo de debate que envolve questões finais, sabem? Então, apenas respeito.

Mas que não gosta, não gosta. Querem ver?

Outro dia, ouvi em algum lugar uma história de uma criança perguntando ao pai:

- "Mas pai, quando você morrer, quem vai cuidar de mim?"

E o pai, "educando" o filho:

_ "Não filhinho. Não é quando. É "Se". Se o papai morrer..."

Bem, lamento informar, mas a morte não é uma questão hipotética. É, decididamente, uma questão cronológica. Logo, não é "se" é "quando" mesmo.

Tem uma coisa que me interessa muito nisso de "era uma vez" somado ao fato de sermos animais históricos.

Como eu dizia, a gente quer fazer diferença. Deixar alguma coisa aqui depois que se transformar em outra que não seja mais Humano ou Humana, conforme cada crença que, já combinamos, não vem ao caso agora.

Para a maioria de nós, o que deixamos como continuidade são nossos filhos. Eles escrevem suas histórias a partir das nossas. Sempre me pergunto se as crianças estão ouvindo as "más" histórias -- seu pai fez isso, seu tio foi aquilo, sua avó era aquilo outro... e uma coisa negativa na sequência -- ou se as "boas" histórias, aquelas que ajudam a construir o caráter. Você puxou a inteligência do seu pai, a bondade da sua mãe, o senso de humor do seu tio, a gentileza da sua avó... Tomara que sejam estas. Tomara!

Sabiam que, na antiguidade, o pior castigo não era a morte? Era o banimento da tribo. Nunca mais seu nome poderia ser, sequer mencionado. Pior que deixar de existir, é nunca ter existido.

Tem até coisa pior que é ter existido pra alguém e ser esquecido. Nossa isso dói muito!

O Fábio Jr. tem uma música sobre as coisas que nunca aconteceram e como elas doem... Sobre nossos "Era uma vez..." que não tiveram um "E viveram felizes para sempre...". Chama-se CHORO. Ele fala de uma relação que deixou de existir quando ainda tinha muita história, muitas possibilidades, muitos "Era uma vez..." potenciais. São só estas que doem. As que ainda prometiam... Por tudo que eu sei, elas cobram com uma força lascada anos depois... Melhor escrever histórias com começo, meio e The end.

Mas, nós queremos fazer história. De uma forma ou de outra. E da melhor forma possível, inclusive. Não conheço ninguém que não se importe, de verdade, com o que falam sobre seu caráter, ou personalidade. Da boca pra fora, tem sim. Pra valer, tem não.

- "Falaram de mim, é? O quê?" Com um ar assim, quase, quase, desinteressado. Como mulher que passa o dia inteiro se arrumando pra parecer que já saiu da cama daquele jeito. Displicentemente elegante. Básico.

Acho que é isso, nós, animais históricos, precisamos nos unir se queremos fazer história. Se queremos fazer diferença no mundo!

Como disse " Hélio Ribeiro no seu livro "O poder da mensagem" que marcou minha pré-adolescência:

"Inteligentes do mundo, uni-vos. Que os imbecis já estão.

Inês Cozzo Olivares
Iniciada em 16 de agosto de 2009 às 21h49min6s e concluída (?) em 02 de setembro de 2009 às 19h24, mais ou menos...
Como pode, né? Tão curtinha...

O que revela o melhor que há em mim?
Lembram-se do Giovanni, o italiano bonitão da crônica Sobre Sorrisos e Verdade? Aquele que me achou no Facebook e comparou meu sorriso à uma obra de Vivaldi? Pois é, ele agora é meu amigo e correspondente diário. Até me pediu pra adicioná-lo no meu Orkut. Continua galanteador, mas acho que isso tá no DNA deles, dos italianos, e acabei me acostumando. Nem dói mais. Mas hoje ele me disse algo que me colocou pra pensar muito. Ele disse:

- "Forse il mare riesce a tirar fuori il meglio che c'è dentro di me".

Calma... É claro que vou traduzir. É que o italiano é um idioma tão... tão... Ah... TÃO! Poético, lírico, idílico, romântico. Eu tinha que colocar a frase exatamente como a recebi, entendem? Enfim, ele disse: "Talvez o mar possa trazer o melhor que há em mim".

Ele ama o mar! E, assim como me manda flores virtuais todos os dias, me manda fotos do Mar que ele vê da casa dele em Impéria e pelo qual navega sempre que tem um tempo livre. Chato, não?

O negócio é que, aí, eu fiquei me perguntando o que é que traz o melhor que há em MIM. Quando é que eu fico com o melhor humor que se possa ter? Quando me sinto 100% centrada? Equilibrada? De bem com a vida? Qual é o meu Nirvana? E fiquei chocada comigo mesma quando descobri que não há uma única resposta pra isso. Não é o Mar. Não consigo encontrar uma coisa única capaz de me trazer todas essas maravilhas.

Pensei na música, nos livros, nos filmes, no meu trabalho, nos meus amigos e amigas (família inclusa; tenho um orgulho gigantesco da minha e são todos meus amigos!). São todas coisas que amo de paixão. Sem as quais eu não viveria feliz. Mas fui incapaz de eleger UMA delas como resposta à minha inquietação de agora.

Será que eu deveria me sentir culpada? Porque eu realmente não me sinto.

Eu me expresso através da música. Me inspiro nos livros que leio, mesmo os técnicos. Vivo uma vida paralela nos filmes que vejo quando "viajo" neles e me transformo na personagem que eu quiser ser naquele momento e crio uma realidade ampliada, estendida, por assim dizer, juntando o real mais o imaginário, aliás, o poder da minha imaginação é um ponto fora do gráfico, sabem? Minha família e amigos são parte da minha história, d'eu ter me tornado quem sou hoje e olhem que eu nem tenho definição; me considero um ser em formação. E o meu trabalho, ah o meu trabalho... Ele é o que mais se aproxima, pra mim, do que é o Mar para o Giovanni. É que nele encontro absolutamente tudo isso! Nele eu sou inteira, íntegra e 100% congruente e ecológica comigo mesma. Músicas, filmes e livros são recursos e companheiros constantes, quase amigos mesmo. Minha família e meus amigos participam dele das formas mais variadas e inesperadas (mais INES que 'peradas... desculpem, não resisti...), alguns nem sabem disso, mas estão poderosamente presentes.

Aí pensei: Como o Giovanni vai "carregar" o Mar com ele quando for "engenheirar" (ele é engenheiro)? Ele realmente precisa tirar um tempo pra ir buscar o melhor dele no Mar. E, então, cheguei à duas conclusões importantíssimas. A primeira é que me considero afortunada. O melhor de mim me acompanha o tempo todo. A segunda, e mais importante, é decorrente e consequência da primeira, se o melhor de mim me acompanha o tempo todo, então, decididamente, o melhor de mim, sou eu mesma.

Como disse Elizabeth Kübler-Ross, cientista, doutora e educadora, as pessoas são como vitrais. Elas faíscam e brilham quando o sol bate nelas, mas quando vem a escuridão, sua verdadeira beleza somente é revelada se houver uma luz vinda de dentro. Por isso eu te pergunto, e você? O que revela o melhor que há em você?


Inês Cozzo Olivares (ainda "encafifada" com essa questão...)

As coisas que nós não percebemos
Ah, os maravilhosos anos 80!

Você já deve ter ouvido essa expressão, como eu, centenas de vezes, não é mesmo? Eu mesma já repeti essa expressão centenas (ou mais) de vezes! Claro, eu realmente VIVI os maravilhosos anos 80, então isso explica e justifica. Mas, a verdade é que mais de 3 gerações dizem o mesmo dessa época e ninguém diz: "Ah, os maravilhosos anos 20", ou 30, 40, 50, 60, 70, 90. Eu fiquei me perguntando por que. Bem, vocês sabem? Eu SEMPRE fico me perguntando o por que das coisas. Acho que é por isso que adoro Filosofia... Mas, essa é outra história.

Meu caso agora é com os maravilhosos anos 80 e as coisas que a gente não percebe... mas deveria.

Por exemplo, eu estava em um dos inúmeros bate-papos, com o Oswaldo Montenegro, extremamente inteligentes e agradáveis -- como costumam ser todos os bate-papos com ele -- e falávamos da força que há nas letras de algumas músicas e que ninguém percebe DE FATO. Então, ele me chamou a atenção para REALCE do GILBERTO GIL. Época: Anos 80, claro! E a letra é realmente genial!

Vocês vêem? O Oswaldo não é apenas cantor, é também compositor, escritor, diretor e autor teatral além de um profundo estudioso da natureza humana. Isso dá à ele uma condição privilegiada. E, à quem convive com ele, mais privilegiada ainda. Ele soma a cultura geral enorme que tem, com a alma do artista. Sensível, altamente perceptiva e especialmente atenta. Mais até que a do cientista, porque conectada ao todo, enquanto nós, cientistas, tendemos a focalizar a parte, o detalhe.

Bem, eu tenho muito essa pretensão de já conseguir "mixar" um pouquinho das duas em mim e em tudo que faço. Ciência e Arte. Vocês, que me conhecem, me contam se estou no caminho certo, por favor? Obrigada.

Voltando à música realce do Gil, a primeira estrofe diz assim:

"Não se incomode
O que a gente pode, pode
O que a gente não pode explodirá
A força é bruta
E a fonte da força é neutra
E de repente a gente poderá
"

Isso é Zen total! O que a gente pode, pode. Não há com que se preocupar. A gente pode e pronto. E o que a gente não pode, explodirá. De alguma maneira, vai acontecer. O Inconsciente, o Universo, o destino, Deus... Questões finais. Não vem ao caso agora. Coloque você a Fonte que está no centro da sua crença e confie. Ela, a Fonte, fará a "coisa" acontecer.

"A força é bruta e a fonte da força é neutra e de repente a gente poderá". Isso não te parece profundamente "alivia-dor"? Eu acho. Pra mim é. A Força é mesmo neutra. Ela não está contra mim nem contra ninguém. Apenas segue seu curso. A questão é se estou capaz de enxergar nas tais linhas tortas a escrita certa. E ter paz-ciência quando não posso. E esperar até a "coisa" explodir, isto é, acontecer. Já adianto que não. EU não sou uma das melhores "esperadoras" que conheço. Nã-na-ni-na-não. Paz-ciência pra mim.

Mas nós, que "adolescemos" nos anos 80, pulamos, dançamos e "trans-piramos" muito (n)essa música, numa Disco Dance. Chamávamos de discoteca. Pronto. Contei. Agora relaxem.

"Realce, realce
Quanto mais purpurina, (parafina, serpentina) melhor
Realce, realce
Com a cor-do-veludo, com amor
Com tudo, de Real teor, de beleza
Realce, realce, realce, realce
Realce, realce, realce, realce
"

E como isso era liberta-dor.

Ah, me perdoem tantos hífens onde não existem, mas às vezes eles me ajudam muito a dar destaque ao que preciso, quando a palavra sozinha não alcança o que quero. Viu, Tio Chico? Pôxa... Nem o Tio Vanderlei, que é formado em linguística, me dá "dura" quando uso gíria. Aquarianos.... Humpf! Vocês e seu arquétipo de perfeição. "Humpf" de novo!

Mas eu tenho mesmo saudade daquele tempo... Eu e meu irmão, Carlos -- o bonitão da turma --, participamos de um concurso de dança imitando o John Travolta e a Karen Lynn Gorney na sua famosa dança em Saturday Night Fever. Tenho o maior orgulho disso. Tenho que ter. Nós ganhamos! A gente ensaiou incansavelmente. Afinal, o cérebro humano aprende por ensaio, repetição e velocidade. Vimos o filme 17 vezes! Lembrem-se, não havia vídeo em 1977. Ah... como eu amo cinema.

Como eu dizia, eu voltava pra casa renovada, para o que de mais importante eu tinha pra fazer na minha vida de então: Estudar para a prova. UMA VEZ POR MÊS!

Eu acho que é por isso que a gente diz que era feliz e não sabia. Nossa principal preocupação na vida era tirar nota suficiente pra passar de ano. Sim, porque, meninas (hoje mulheres, como eu), verdade seja dita, com o "carinha" ou "gatinho", não nos preocupávamos DE FATO, certo? Curtíamos! Nos ocupávamos em ficar bonitas pra nos sentirmos bem perto dele. Fazíamos a manicure umas das outras ou de nós mesmas -- que ninguém tinha dinheiro sobrando pra pagar por isso -- pegávamos "roupitchas" e acessórios emprestados umas das outras; olhávamos no espelho, nos elogiávamos mutuamente, ficávamos satisfeitíssimas com o resultado, íamos para as discotecas do bairro e produzíamos uma quantidade de serotonina que daria pra deixar um seismossauro -- um dos maiores dinossauros que já existiram --, feliz da vida, por um ano!

A Neurociência diz que, cada vez que nos sentimos felizes, produzimos esse neurotransmissor chamado serotonina , entre outros. 'Tá aí o link pra wikipedia. Vai que você é investigativo e curioso como eu...

Eu já contei, duas crônicas atrás, que produzo minha cotazinha diária de serotonina, atualmente, com filmes e músicas principalmente. É verdade. Funciona mesmo. Eu sei. Eu estudo esse negócio aí. Eu até ensino esse negócio aí.

Há também neurotransmissores que nos produzem tristeza, saudade (essa até que é boa. Como diz a música "Sonhos" do Peninha,  "Ter saudade até que é bom; é melhor que caminhar vazio.") e nostalgia (tenho tido alguma ultimamente, preciso cuidar bem dela, dar à ela a "comidinha" certa, senão ela não vai embora...). Aí, vem o Gil e diz assim:

"Não se impaciente
O que a gente sente, sente
Ainda que não se tente, afetará
O afeto é fogo e o modo do fogo é quente
E de repente a gente queimará
"

Ando meio "brasa apagada" por estes tempinhos recentes. Porque "o que a gente sente, sente". Não dá para não sentir. E "ainda que não se tente", afeta mesmo nossa vida toda, isso que a gente sente. Mas ainda voltarei a incandescer. Confio em alguém que conheço e que é um excelente soprador de brasas, sabem? Enquanto isso, tenho todas as músicas dos maravilhosos anos 80 pra produzir a serotonina de que preciso.

É claro que cada época tem sua(s) crise(s), mas nos anos 80 parece que a gente tinha mais noção da crise como uma condição humana e não como um acontecimento necessariamente ruim. Eu concordo com a definição de CRISE dada pelo PAULO GAUDÊNCIO nesse CAFÉ FILOSÓFICO. Até editei e postei no meu canal do YouTube. Apenas não acho que velho é quem se estruturou, como ele diz. Acho que velho é quem se "engessou" na estrutura que criou. Aí vem a crise, aquela que dói. E aí vem o Gil de novo:

"Não desespere
Quando a vida fere, fere
E nenhum mágico interferirá
Se a vida fere
Com a sensação do brilho,
De repente, a gente brilhará"


Então, "crianças" dos anos 80 e de todas as outras décadas, sejamos felizes. Com a sensação do brilho, de repente, a gente brilhará. REALCE!

Inês Cozzo Olivares São Paulo, 27 de Agosto de 2009
Sobre Sorrisos e Verdade
Sou uma mulher casada. Isto posto, que fique bem claro que não costumo estimular ou permitir a continuidade -- a primeira não posso evitar -- das cantadas que recebo presencial e virtualmente através das inúmeras redes sociais da internet das quais participo. Paz-ciência...

Não vou abrir mão de tudo que tenho de positivo participando das redes só porque a maioria as utiliza para encontrar sua alma gêmea ou outra coisa menos nobre (?). Já aprendi coisas que gastaria uma fortuna pra aprender num curso e nem seria tão divertido. Informações sobre equipamentos e softwares, dicas para melhorar fotos e filmagens, artistas novos que não conhecia e pelos quais me apaixonei, indicações de filmes incríveis e livros tão fabulosos quanto e por aí vamos. Viva o Social Network!

Voltando às cantadas, recebo-as aos montes mas, hoje, uma delas me chamou especial atenção.

Local: MySpace.
Protagonista: Giovanni.
País: Itália, claro! Se me chamou a atenção a ponto de me colocar aqui pra escrever sobre isso, tinha que ser a cantada de um italiano.

Então, o cara é italiano e ficou impressionadíssimo quando respondi à ele em italiano.

- Ines, ma tu parli italiano ??? Effettivamente sei una donna molto bella, ma sei proprio una brasiliana??

Como assim "mas, você é mesmo brasileira?" Claro que sou mesmo brasileira! Haveria, talvez, quem sabe, uma pontinha de preconceito aqui? Deixa pra lá. Não quero sofrer agora.

Respondi em italiano sim, senhor! E viva o FRENGLY, um dicionário on line, gratuito, que traduz de tudo pra qualquer coisa! Inclusive italiano.  Eu leio super bem e até me arrisco a falar umas frases curtinhas em italiano, mas escrever? Isso é lá com Frengly.com

Mas isso foi só uma digressãozinha. O ponto mesmo é a cantada e o insight que ela me deu, além, claro, de inflar meu ego de um jeito que quase não está cabendo mais dentro do meu "póprio" ser, como diz, jocosamente, minha irmã Daniela.

O italiano bonitão (ele é mesmo muito bonito), me perguntou se eu gostava de Vivaldi (ainda por cima tem bom gosto! Ai, ai, ai esses italianos...). Adoro Vivaldi, respondi. Particularmente o Adágio (1º movimento) Primavera com o Herbert Von Karajan. Nossa! Só de me lembrar, arrepia e eu esqueço do mundo. Disse isso à ele e aí aconteceu! Ela, "A" cantada mais linda do mundo! Toda mulher deveria receber uma dessas pelo menos uma vez na vida. Ele disse em bom italiano e, isso parece que melhora muito uma cantada...:

- E' vero, la Primavera è la parte piu' bella delle 4 stagioni di Vivaldi.
Ti suggerisco di ascoltare "bene" il secondo tempo (il largo) dell'Inverno delle 4 stagioni. E' una musica che incanta e che potrebbe essere il "rossetto" del tuo sorriso.

Volto a escrever assim que terminar de recolher o que há de mim derretido em volta desta escrivaninha...

Pronto. Voltei.

"il "rossetto" del tuo sorriso" O bonitão culto comparou meu sorriso ao 2º movimento das 4 Estações de Vivaldi! Por favor! Que mulher, em sã consciência, pode dizer que não abala. Abala! Dá vontade de sair pela rua, sorrindo feito uma tonta pra todo mundo!  Vai ver, você até já viu una donna "pelaí" (perdão Tio Chico) desse jeito e achou que ela era maluca. Não era. 'Tá vendo? Só estava explodindo de autoestima.

Se o 1º movimento, que é Allegro Non Molto já é um arraso de lindo (juro que chega a dar vontade de chorar quando ele cresce,  alí pelo meio e no final, mas é de alegria), o 2º movimento (largo) então... é de uma beleza... uma suavidade e delicadeza. Lembrei-me da Rosana Braga com seu maravilhoso trabalho "O poder da gentileza". E agradeci muito à minha mãe por me haver introduzido no mundo da música clássica desde bebê. É um mundo lindo esse!

Aí, fiquei me perguntando, será que eles já nascem com esse chip, os italianos? Tem pra vender? Dói muito instalar no marido da gente? (Perdão Tuim, mas quem te conhece sabe que não foi pela sua "italianidade" que eu me casei com você...)

Outra digressão. Não é esse ainda meu ponto principal. Meu foco aqui é o que faz com que tantas pessoas, homens e mulheres, das mais variadas nacionalidade e idades, comentem meu sorriso.

Pensei, pensei e descobri. É a verdade contida nele. Eu jamais sorrio abertamente se não estiver sentindo vontade. Posso até dar um eventual sorriso suave e gentil porque ninguém tem nada a ver com minha tristeza, mas um sorrisão mesmo, como este da foto de divulgação que uso na mídia em geral, aí não.

Foi com o Taiguara que aprendi isso. Um "cara" que parece que nasceu pra dizer, em música, tudo que sinto, tudo que me acontece. Será que é porque acontece com todo mundo?
 
Foi na belíssima música "Piano e Viola", na última estrofe, que aprendi.

Fica aqui meu muito obrigada ao meu Tio Francisco (Chicão), à minha Tia Ana e à minha Tia Cecília por me haverem apresentado ao mestre TAIGUARA já na infância! Vocês são os melhores professores que uma garotinha romântica poderia ter!
Amo vocês!

Piano e Viola
Taiguara
Composição: Taiguara

Olhando o dia de chuva
Vi que mais triste era eu
Que sem estrela e sem lua
Te procurava no céu
Fiz do piano a viola
Fiz de mim mesmo o amigo
Fiz da verdade uma estória
Fiz do meu som meu abrigo

Quem canta, fala consigo
Quem faz o amor nunca quer ferir
Quem não fere vive tranquilo
Vê muita gente sorrir

E quem não tiver do seu lado
A quem ama e quer ver feliz
Não diga que não se importa
Diga só o que o amor lhe diz
Essa mentira é uma espuma
Que se desmancha no ar
E deixa n'água um espelho
Pra você se ver chorar

Sorriso bom, só de dentro
Ninguém é bom sendo o que não é
Eu, pra ser feliz com mentira,
Melhor que eu chore com fé


Que você dê seu melhor sorriso hoje e pra sempre. Com fé!

 
Quando a gente está triste
Quando eu estou triste, procuro coisas alegres e felizes. Ver um filme alto-astral várias vezes é uma delas. Faço isso, por exemplo com Escrito nas estrelas (Serendipity), A felicidade não se compra (Wonderful Life) -- esse, então, uso como remédio mesmo. Pra  aumentar a auto-estima -- e A noviça rebelde (Sound of music) com a Julie Andrews. Como eu amo esse filme! Sei todas as músicas dele de cor... ação... Como diz uma de suas canções, "These are a few of my favorite things" -- com imagens e a letra pra você treinar seu inglês (Estas são algumas das minhas coisas favoritas - em karaokê pra você cantar)

When I'm feeling sad, (Quando estou me sentindo triste)
I simply remember (eu simplesmente recordo)
my favorite things (minhas coisas favoritas)
and then I don't feeel so bad! (e, então, não me sinto tão mal)

Agora, sabem quando a gente está só meio triste? Ainda não é um triste inteiro, entende? É só uma pontinha, um comecinho, de tristeza. Sabem que "pegar" a tristeza quando ela ainda é "filhotinha" é bem mais fácil, né? Pode ser por sensação de abandono que é quando a jangada parte e você fica, como diz a Adriana Falcão. Ou como quando você está sofrendo com a ausência de alguém. Aliás, curioso como a ausência é mesmo uma falta que fica muito, muito presente... Parece aquela brincadeira de perguntar se tá doido o mundo. Tudo junto se escrever separado e separado se escrever tudo junto... Dãããã...

O fato é que, quando é só um comecinho ou uma pontinha de tristeza, aí também não se precisa ver um filme inteiro. Às vezes nem dá. No trabalho, por exemplo, não dá. Para casos assim, eu vejo esse vídeo do YouTube.

Aconteceu em Antuérpia, Bélgica, na estação central de trem, onde, numa manhã de segunda-feira, sem qualquer advertência aos passageiros que passavam pela estação -- passageiros que passavam... humpf! -- às vezes eu redundo mesmo... e você?, bem, o fato é que a voz de Julie Andrews soou nos alto-falantes e aí...

Reparem nos olhares perplexos das pessoas que estavam ali naquele momento mágico. Os sorrisos. Os passinhos tímidos de dança.

Foram 200 dançarinos e 4 semanas de ensaio e o resultado ficou surpreendente.

Assistam imaginando que os dançarinos são mesmo pessoas "comuns" (isso existe?), pessoas que estavam na estação e simplesmente se deixaram levar pela leveza, pela beleza e pela felicidade contidas na música. Apenas imagine que todas as pessoas no mundo se deixassem levar assim, vez ou outra. Nem precisaria ser sempre. Menos lágrimas nos escapariam... Ando lendo muito a Adriana Falcão ultimamente como você já deve ter notado (rs) -- comecei com "Mania de explicação" e não parei mais -- e ela tem razão, "lágrima é um sumo que sai dos olhos quando se espreme um coração." O meu anda meio espremido ultimamente, então, preciso muito das minhas coisas favoritas. Esse vídeo, é uma delas.

Mas, se o que aconteceu nesse vídeo, acontecesse mais vezes e com todo mundo, desconfio que a gente sorriria mais...

De presente, a letra e a tradução da mais famosa música de "A noviça rebelde". Experimentem cantar junto. É uma delícia! E "pega o bichinho" da tristeza ainda filhotinho e o ensina a se transformar em reflexão... sem dor... Tenta?

DO, RE, MI
Let's start at the very beginning (Vamos começar bem do comecinho)
A very good place to start (um ótimo lugar pra começar)
When you read you begin with A-B-C (Quando lê, você começa com ABC)
When you sing you begin with do-re-mi (Quando você canta, você começa com Dó - ré - mi)

Do-re-mi, do-re-mi
The first three notes just happen to be  (as primeiras 3 notas que aparecem)
Do-re-mi, do-re-mi

Maria:
Do-re-mi-fa-so-la-ti
spoken Let's see if I can make it easy (Deixe-me ver se consigo tornar isso mais fácil)

Doe, a deer, a female deer ( Corça*, um cervo, um cervo feminino )
*(há uma analogia fonética entre doe e dó, sendo doe = corça)

Ray, a drop of golden sun (Raio*, uma parte que cai do sol dourado )
*(outra analogia fonética, agora entre ray e ré)

Me, a name I call myself (Mim, um nome que eu chamo a mim mesmo )

*(mais no sentido de "eu" e uma analogia fonética entre me e mi)

Far, a long, long way to run (longe, um lugar longo, longo a percorrer)

Sew, a needle pulling thread (Costura, uma agulha puxando a linha)

La, a note to follow Sew (Lá, uma nota depois de Sol)

Tea, a drink with jam and bread (chá, uma bebida com geléia e pão)

That will bring us back to Do (oh-oh-oh) E isso nos trás de volta ao Dó

Maria and Children:
(Repeat above verse twice)

Maria:
Do-re-mi-fa-so-la-ti-do
So-do!

Maria:(spoken)
Now children, do-re-mi-fa-so and so on (Agora crianças, dó-ré-mi-fá-sol e assim por diante)
are only the tools we use to build a song. (São apenas ferramentas que usamos para construir uma canção)
Once you have these notes in your heads, (Uma vez que vocês tenham essas notas nas suas cabeças,)
you can sing a million different tunes by mixing them up. (vocês podem cantar um milhão de melodias diferentes misturando-as)
Like this. (como isto)

So Do La Fa Mi Do Re
spoken Can you do that? (vocês conseguem fazer isso?)
Children:
So Do La Fa Mi Do Re
Maria:
So Do La Ti Do Re Do
Children:
So Do La Ti Do Re Do
Maria:
spoken Now, put it all together. (Agora, coloque tudo isso junto)

Maria and Children:
So Do La Fa Mi Do Re, So Do La Ti Do Re Do
Maria:
spoken Good! (Ótimo!)
Brigitta:
spoken But it doesn't mean anything. (Mas isso não significa nada)
Maria:
spoken So we put in words. One word for every note. Like this. (Então, nós colocamos em palavras. Uma palavra para cada nota)

When you know the notes to sing (Quando você sabe as notas para cantar)
You can sing most anything (Você pode cantar qualquer coisa)
spoken Together! (Juntos!)

Maria and Children:
When you know the notes to sing
You can sing most anything

Doe, a deer, a female deer
Ray, a drop of golden sun
Me, a name I call myself
Far, a long, long way to run
Sew, a needle pulling thread
La, a note to follow Sew
Tea, a drink with jam and bread
That will bring us back to Do

Do Re Mi Fa So La Ti Do
Do Ti La So Fa Mi Re

Children:
Do Mi Mi
Mi So So
Re Fa Fa
La Ti Ti
(Repeat above verse 4x as Maria sings)

Maria:
When you know the notes to sing
You can sing most anything

Maria and Children:
Doe, a deer, a female deer
Ray, a drop of golden sun
Me, a name I call myself
Far, a long, long way to run
Sew, a needle pulling thread
La, a note to follow Sew
Tea, a drink with jam and bread
That will bring us back to

Maria:
Children:

Do . . . So Do
Re . . . La Fa
Mi . . . Mi Do
Fa . . . Re
So . . . So Do
La . . . La Fa
Ti . . . La So Fa Mi Re
Ti Do - oh - oh Ti Do -- So Do

Se você gostou da "brincadeira", esperimente esta outra canção do mesmo filme

The Lonely Goatherd
Maria:
High on a hill was a lonely goatherd
Lay ee odl lay ee odl lay hee hoo
Loud was the voice of the lonely goatherd
Lay ee odl lay ee odl-oo

Folks in a town that was quite remote heard
Lay ee odl lay ee odl lay hee hoo
Lusty and clear from the goatherd's throat heard
Lay ee odl lay ee odl-oo

the Children:
O ho lay dee odl lee o, o ho lay dee odl ay
O ho lay dee odl lee o, lay dee odl lee o lay

Maria:
A prince on the bridge of a castle moat heard
Lay ee odl lay ee odl lay hee hoo
Kurt:
Men on a road with a load to tote heard
Lay ee odl lay ee odl-oo

the Children:
Men in the midst of a table d'hote heard
Lay ee odl lay ee odl lay hee hoo
Maria:
Men drinking beer with the foam afloat heard
Lay ee odl lay ee odl-oo

One little girl in a pale pink coat heard
Lay ee odl lay ee odl lay hee hoo
Brigitta:
She yodeled back to the lonely goatherd
Lay ee odl lay ee odl-oo

Maria:
Soon her Mama with a gleaming gloat heard
Lay ee odl lay ee odl lay hee hoo
What a duet for a girl and goatherd
Maria and the Children:
Lay ee odl lay ee odl-oo

Maria and the Children:
Ummm (ummm) . . .
Odl lay ee (odl lay ee)
Odl lay hee hee (odl lay hee hee)
Odl lay ee . . .
. . . yodeling . . .

Child:
One little girl in a pale pink coat heard
Maria:
Lay ee odl lay ee odl lay hoo hoo
Child:
She yodeled back to the lonely goatherd
Maria:
Lay ee odl lay ee odl-oo

Maria:
Soon her Mama with a gleaming gloat heard
Lay ee odl lay ee odl lay hmm hmm
What a duet for a girl and goatherd
Lay ee odl lay ee odl-oo

Maria and the Children:
Happy are they lay dee olay dee lee o . . .
. . . yodeling . . .
Soon the duet will become a trio
Maria:
Lay ee odl lay ee odl-oo

Maria and the Children:
Odl lay ee, old lay ee
Odl lay hee hee, odl lay ee
Odl lay odl lay, odl lay odl lee, odl lay odl lee
Odl lay odl lay odl lay

the Children:
HOO!


Eu, meu amigo e a "Morte"
Na madrugada de sábado passado perdi um grande amigo. Digo perdi só pra colocar as coisas no padrão convencional, porque não acredito mesmo nisso. Não acho que perdi. Gente não é da gente. Ninguém é de ninguém, logo não dá pra perder. Ninguém perde o que nunca teve. Em todo caso, eu não o vejo mais com os olhos físicos, nem posso mais tocá-lo com as mãos ou falar com ele como falo com vocês - alguns de vocês, pelo menos. Acho que isso ainda vai doer um tempo. Chama-se luto e dói mais quando o amigo é o pai da gente. Ele era (?) meu pai.

Nem nos víamos com tanta frequência. Eu viajo muito. Mas a qualidade da presença sempre superou a falta de quantidade. Uma vez li num cartão da Imaginarium que pra estar junto não é preciso estar perto. Só é preciso estar dentro. Ele está dentro. Essa é outra razão porque sei que não perdi.

Cada vez que faço algo que aprendi com ele, ele está junto comigo. E eu aprendi muita coisa com ele. Aprendi a gostar de música -- de Nelson Gonçalvez a Beatles -- e isso me ensinou ecletismo, flexibilidade, respeito pela diversidade, adaptabilidade a diferentes estilos e a enxergar a beleza neles. Meu primeiro compacto foi ele quem deu. Era "Me and you" do Dave McLean ... Give me only a smile... Me dê só um sorriso... e do lado B era We Say Goodbye... Why did you say goodbye to me? Por que você disse adeus pra mim?... Alguém lembra? É só comigo ou está mesmo havendo uma onda de saudosismo e de reencontros "pela aí"?

Ele também me ensinou a falar espanhol e inglês. Ele usava neuroaprendizagem, sabiam? Nos anos 60! Colocava os discos do Miguel Aceves Mejia -- eu me emocionava sempre com La Calandria - e me ensinava a cantar em espanhol e entender o que era dito. Fazia o mesmo com o inglês tocando Beatles, Neil Diamond, Bee Gees... Saber com sabor. Isso foi, tenho certeza, meu primeiro embrião do que eu faria anos mais tarde casando a ciência com a arte. Eu realmente acredito que a sabedoria só voltará quando, de novo, como na antiguidade, Ciência e Arte forem amigas, senão amantes.

Aprendi com ele a gostar de eletrônicos. A operá-los com facilidade. Nossa, como isso me ajudou a entrar na era da cibernética. A internet entrou no Brasil em 96/97. Em outubro de 97 eu já tinha e-mail e já tinha colocado meu primeiro site no ar -- totalmente criado por mim! Ambos gostamos de gadgets -- essa bugigangas eletrônicas super divertidas. É, definitivamente, meu pai me colocou no século XXI muito, muito antes dele chegar.

Ele me ensinou a fazer trocadilhos. Era espirituoso e ágil, com um senso de humor desses que não tem como a gente não rir. Sabia ser encantador quando queria.

Mas a coisa mais importante que aprendi com meu pai foi a viver e deixar viver. Ele jamais se metia na vida de ninguém. Deve ser por isso que troquei a Psicologia Clínica pela Organizacional (rs). Ainda me lembro dele dizendo pra minha mãe "Deixa a menina quieta" quando, aos 18 anos, tomei uma decisão importante da qual ela discordava.

Ele era ranzinza... exceto quando não era.
Ele era calado... exceto quando não era.
Ele era mal-humorado... exceto quando não era.
Será que a gente ama as pessoas pelo que elas são, pelo excetos, por ambas as coisas ou porque, no fundo, sabemos que ninguém "é" coisa nenhuma. Apenas "está" deste ou daquele modo?
Não importa. Eu amo meu pai. Eu te amo porque te amo. Vocês conhecem "As sem-razões do amor" do Carlos Drummond de Andrade?

AS SEM-RAZÕES DO AMOR
Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
-
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
-
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
nem se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
-
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

É... eu amo meu pai. Vou sentir falta dele na forma convencional e "papear" muito com ele na forma ascencionada -- um privilégio, eu acredito. De quando em quando, vou me lembrar de alguma coisa que vai me emocionar. Talvez eu chore. Como agora. Tá bom também. Faz parte.

Aos que vão estar trabalhando comigo nos próximos meses só peço, seguindo o conselho do amigo Luiz Carlos (o mesmo da crônica passada; do livro "Por que fazer terapia?") que me permitam parecer distante de vez em quando. Isso vai acontecer muito por um tempo. E sorrir um pouco menos também. Paz-ciência.

Pro meu pai, fica aqui a belíssima música "Por brilho" do Oswaldo Montenegro, outro amigo de quem gosto e respeito muito, destacando o verso:

"Onde vá,
Vá para ser estrela.
As coisas se transformam
E isso não é bom nem mal.
e onde quer que eu esteja,
O nosso amor tem brilho,
vou ver o teu sinal"

Até breve, amigo.


São Paulo, 10 de agosto de 2009
Inês Cozzo Olivares (a filha)
Sobre Amor-Paixão e Amor-Amizade
by Inês Cozzo Olivares

Alguns sabem, outros saberão agora. Eu estive uma semana em Portugal. Foi pra mim o início de um novo ciclo - fiz aniversário dia 30 passado.

Alguns sabem, outros saberão agora. Quando dou aulas ou palestras, quando escrevo livros ou estes boletins, quando conduzo reuniões ou processos de coaching, ou qualquer coisa que eu faça no meu trabalho, quem aparece é a consultora - e ela tem cara de consultora, mas quem "pilota" a consultora é uma adolescente de 17 anos profundamente apaixonada pelo que faz! Eu espero muito que isso apareça na forma como faço tudo que faço. Nesse sentido, há uma congruência permanente em mim. Continue lendo e você verá onde quero chegar.

Fui para Portugal principalmente para o que chamarei de um retiro que era pra ser de uma forma, mas foi de outra, não menos importante que aquela que idealizei, e que me traz até aqui com uma inquieta-ação pra compartilhar com você que lê as coisas que escrevo. Desejo muito suas considerações, opiniões, palpites, sugestões ou, simplesmente, suas próprias inquietAções. Fique mais que a vontade pra enviá-las por esta mesma via.

Estive e estou pensando... Existe um Amor que se constrói com o tempo. Ele tende a ser sereno, amigo, seguro, tranquilo. A gente até o chama o tempo todo de porto seguro. Quando estamos carentes, ele nos aplaca a solidão e minimiza a angústia, a tristeza ou qualquer outro sentimento ou emoção que chamamos "negativo(a)". E isso é bom. Nos faz bem. Mas, como disse John A. Shaedd: "Um barco está seguro num porto, mas os barcos não são construídos para isso."

Existe também um outro tipo de Amor. É o amor-paixão. Ele é incendiário, espontâneo, nasce sem que a gente faça absolutamente nada pra que ele se manifeste. A gente apenas vê o outro, ouve a voz dele(a) e o corpo muda, por dentro e por fora... A Alma grita "- Eu quero! Eu preciso!" Aliás, na maioria das vezes, a gente até tem que fazer um esforço tremendo pra disfarçar, mas ele é poderoso e escapa. Não raro, quem chega perto também pega fogo. É adrenalina no sangue, coração batendo rápido, pulsação à mil por hora, respiração que ora acelara ora fica suspensa. A ansiedade pela chegada daquele e-mail, dele(a) estar no MSN na hora em que você se conecta, de vê-lo(a) chegando de surpresa, de conseguir um toque, um beijo, um tempo junto roubado, sabe Deus de quem ou do quê... Me entende? Sabe como é? Pois é. Todo mundo já viveu um amor assim. De perder o juízo e o bom-senso. Hummm... retificando, eu desejo do fundo do meu coração que todo mundo já tenha vivido um amor assim porque ele nos faz sentir absolutamente vivos! Como disse Adriana Falcão com uma precisão incrível "Paixão é quando, apesar da placa "PERIGO" o desejo vai e entra." É o barco na aventura do alto-mar, enfrentando tempestades e ventos loucos pra descobrir novos horizontes, pra conhecer outros continentes, enfim, pra evoluir, pra crescer, pra dar sentido à vida. É pra isso que os barcos foram feitos. Pra navegar.

Não quero comparar os dois tipos de amor no sentido de qual é o "bom" ou o "certo" nem nada parecido. Quero refletir sobre o que a gente escolhe na vida e fazer uma comparação, aí sim, entre esses dois tipos de amor na vida pessoal e na vida profissional.

Eu conheço um monte de gente, bem mais do que eu gostaria, que num momento de fragilidade, de carência, encontraram um(a) amigo(a) (quase sempre na mesma situação) e decidiram construir uma vida juntos e isso os salvou de naufragar. Vai correr tudo bem, pelo que sei, desde que o amor-paixão nunca apareça ou, pior, REapareça, porque os que reaparecem costumam vir com a força de anos represados. E, aí, a alma vai cobrar. Vai perguntar o que você tá fazendo com a sua vida. Vai dizer que é um barco e que não foi feita pra ficar no porto. Vai te obrigar a fazer coisas das quais você vai se envergonhar porque sabe que não são éticas, mas são muito mais fortes que você. Vai te cutucar até você atravessar oceanos e continentes pra se sentir viva(o), pra SER.

Uma vez, um amigo do Tuim (meu marido) chamado Luiz Carlos Teixeira de Freitas, no lançamento de seu livro "Por que fazer terapia?" escreveu na dedicatória algo parecido com ajudar as pessoas a encontrarem formas mais felizes de ser e estar. Isso me impactou profundamente. Daí, eu vi num documentário que, na cultura indígena, eles escolhem quando partir desta vida, voluntariamente. Assim de simples! Eles avisam à tribo que partirão naquela noite, despedem-se, deitam-se e pronto. Eu juntei tudo isso dentro de mim, acrescentando o fato de que meu próprio ideal de fim de vida é que quero que a morte me encontre vendo a expressão de surpresa no rosto do meu companheiro de toda uma vida, flagrados em pleno ato de amor, aos 90 anos de idade! Então, saberei que vivi intensamente. Mais feliz ainda ficarei, se mais nada ela puder me tirar senão a vida em si. Somando isso tudo, minha missão com meu trabalho, e com tudo que realizo nesta vida, ficou assim: Ajudar as pessoas a encontrarem formas de ser e estar mais felizes na vida, até um dia deixarem de ser e estar, voluntariamente e sem arrependimentos. Essa missão eu pratico diuturnamente na busca de uma visão como a do Fábio Brotto : "Um mundo onde TODOS possam Ven-Ser". Um vir a ser com sabor de sucesso! Não esse sucesso estilizado que a mídia vende mas aquele que nosso coração SABE que é!

Agora chego ao meu ponto neste texto específico. Me dói assistir à um mundo onde as pessoas, a grande e esmagadora maioria das pessoas, está num "emprego", num porto seguro, com medo, rotinizadas, automatizadas, vivendo uma vida de plástico, por um salário no final do mês, à espera de que um milagre aconteça e elas comecem a viver de verdade. Com paixão! Algumas delas sequer sabem o que é que as apaixona. Não têm bússola. Navegam à esmo. Estão perdidas e profundamente infelizes; aí acham que a culpa de sua infelicidade é seu trabalho, seu casamento porto-seguro rotinizado, mantido no piloto automático à là Chico Buarque "todo dia ela faz tudo sempre igual...". Não é. Isso tudo é reflexo, é consequência. Sua infelicidade está aí por causa do seu medo. Viver com medo é viver pela metade e quem tem medo de viver já morreu e nem sabe disso!

Sabe o que é que faz com que virar a noite "trabalhando" não signifique absolutamente trabalho? A paixão pelo que se faz! Quem não tem paixão pelo que faz, vê gente completamente apaixonada, como eu, não separando vida pessoal de vida profissional e acredita que isso é doença. Nos chamam de workaholics. Atenção! Não nego que isso exista. A fuga de uma vida vazia pelo trabalho compulsivo, obsessivo existe, claro que existe, mas não se pode colocar todo mundo na mesma categoria de doença, só porque que vê em tudo uma ligação com aquilo que faz profissionalmente. Não é verdade.

Eu amo o que faço e tudo que me cerca me leva a conhecer melhor e a fazer melhor o que faço. Eu largo o computador, o celular, a agenda, na hora que eu quiser pra ver Harry Potter (adoooro) no cinema! Ou uma boa comédia romântica (adooooro!) no DVD ou na TV. Eu vi filmes deliciosos nos vôos de ida e volta pra Portugal. Assista "A proposta", "17 outra vez" e "Nova na cidade". Eu te desafio a não se identificar com alguma coisa nos personagens desses filmes. Eu encontrei centenas de links entre eles, minha própria vida e meu trabalho no sentido de facilitar a aquisição de consciência pelas pessoas que estão sem bússolas! Mas, nem por isso deixei de me divertir imensamente mergulhada na história do filme! Eu também te desafio a não rir muito com "A proposta".

Eu passeio muito. E onde quer que eu esteja, no cinema, no sofá de casa, no México, em Cuba, no Chile, nos EUA, em Portugal, na casa dos meus pais ou dos meus amigos... Vejo a vida se manifestando de formas diferentes e é com a vida que eu trabalho. É pela vida que me apaixono. E quando eu me apaixono faço papel de boba e não me importo com isso. Prefiro esse papel ao de arrependida. Que a morte não possa nunca me tirar o fato de que vive aquilo em que eu acreditava da forma como acreditava! Eu também mudo de idéia, mudo minhas crenças. Como Juscelino kubitschek, não tenho nenhum compromisso com o erro!

Sinto que isso não acaba se eu não decidir parar de escrever, mas o principal já foi dito. Só falta você se perguntar se seu barco está apenas parado no porto, isolado ou se isolando gradativamente dos outros barcos, comendo, bebendo, dormindo e "trabalhando" pra pagar as contas do fim do mês ou se você tem permitido que ele navegue porque foi pra isso que ele foi construído. Já disse o poeta: Navegar é preciso, viver (esse tipo de vida) não é preciso.

Só mais uma coisa. Se você já sabe o que é que faz seu coração acelerar e o sangue correr mais rápido nas veias, tá esperando o quê?


Inês Cozzo Olivares
São Paulo, 05 de agosto de 2009
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